quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

lovestruck/lovesick

um dois três um dois três passos até a cama cuidado pra não esbarrar na quina ai merda meu joelho puta que pariu. bom pelo menos eu estou na cama agora e minha cabeça pensa demais, como é possível ter tantos pensamentos em uma mente só. eu tô me atropelando, eu mesma tô me sufocando. eu sempre faço isso, sóbria ou bêbada. eu sempre me atropelo e me sufoco e todo mundo sabe que eu sou que nem aquela música, e tempo e medo não fazem o menor sentido para mim, porque eu decido a hora de tudo. eu tenho pressa de viver, como outro cantor colocaria, mas parece que minha pressa é pior, sozinha, quinze passos à frente de todas as pessoas que eu gostaria de estar ao lado. eu queria poder ir no mesmo ritmo que todo mundo. eu queria ser normal.

pelo outro lado, tem você.

eu busco um conforto imaginário nas suas palavras, talvez alguém que me diga que eu não preciso ser normal, mas não, você me pede calma, eu rio, eu quero dizer: eu não tenho calma, nunca estive calma, nunca estarei calma, a parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo, mas eu não digo, minha cabeça roda, e eu não sei se é o álcool ou se é sua voz, um sorriso que se estende no meu rosto, chega até aos meus olhos, chega até a ponta dos dedos que chegam até você e eu queria que eu pudesse tocar na sua alma como você toca na minha, mas eu sou apressada e cheguei rápido demais, não foi, meu amor? o sinal estava fechado ainda, ou melhor, uma porta, ah, rápido demais demais demais, eu digito igualmente rápido, um monte de perguntas na ponta da língua dentro do coração, eu repito todos os meus vãos pensamentos indesejados: você merece, você merece, você merece.

por outro lado, eu.

que não mereço nem nunca mereci, e talvez olhos se revirem a essa constatação, porque gostam tanto de mim, gostam tanto da criatura apressada que faz o próprio tempo e espera que as estradas se curvem aos próprios pés, mas não dá pra se apaixonar por isso, não dá pra se apaixonar pelo desastre ambulante, dá pra você gostar de longe ou de perto, com muito tempo, e eu não dei tempo algum, ah, como eu sou patética, como eu sentia nos meus ossos, como eu sabia porque eu sempre sei, não dá pra ser eu, nunca.

por outro lado.
por outro lado, você.

e você é tão inevitável, meu-bem-que-outros-cantores-chamam-baby, você tem tanta força e meus olhos não conseguem desviar e você vai me dizer que meus olhos não têm que desviar de nada porque eu nem te vejo de verdade e eu vou rir e te apresentar a idéias, metáforas, figuras de linguagem; meus olhos não desviam, meus pensamentos não saem de perto, é como deixar música tocando enquanto fazemos outras coisas e se pegar cantarolando sem saber há quanto tempo se cantarola. é uma música nova, eu sei, ainda estou aprendendo ritmo e letra, mas é você, é você e seu jeito de escrever, de se expressar, é sua voz tão cheia de sentimento que parece que o chão se desfez debaixo de mim, é sonhar que está caindo, inevitável, eu repito pra mim mesma a fim de me justificar, eu preciso de alguma defesa, certo? senhores do júri, me acompanhem: ela não poderia fazer diferente porque ele era inevitável. ela não poderia fazer diferente porque ela é maluca. ela não poderia fazer diferente porque não se faz diferente com quem se guia por sentimentos.

por outro lado...
por outro lado, você também não poderia.
e é, tristemente
inevitável.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

let's pretend we're walking home

um escritor que está impresso em todas as suas palavras: claro, essa é a mais óbvia de todas as afirmações, palavras não são navalhas? cortam quem as escuta, cortam quem as profere. você está em todas as suas histórias, e é bonito de se ver; o protagonista sozinho e aterrorizado, sempre ele, sempre você, até a gente encontrar o outro lado; o protagonista sozinho e aterrorizado que não se incomoda de ter mais um dia lutando, desde que haja mais um dia a ser vivido, eu penso que já fui assim, eu penso que todos nós já fomos assim, menos exaustos e eu queria que esse cansaço pudesse ir embora com um sopro.
ele não vai.

eu preciso te contar uma história sobre você, como você precisa contar suas histórias sobre você.

ele começou a escrever cedo, porque escrever era importante, escrever era o único jeito e, deuses, eu entendo esse sentimento. escrever, punição e perdão. tinha demais dentro da cabeça e do coração, e as palavras eram a tradução em ordem de uma desordem inexplicável.  quem se acostuma a falar para o papel cedo por vezes esquece como praticar o mesmo exercício com as pessoas. aí o disseram: você é gelado. aí o disseram: você é inacessível, e quieto, e recluso, e casmurro, e ele vestiu todas essas características, o coração como uma coroa, como não fazê-lo?
mas esse não era o coração —
não todo, ao menos. o papel sabia mais (o papel sempre sabe mais).
a história sobre um escritor que também era um personagem, que escrevia sobre seu próprio deslumbramento com as relações entre as pessoas, e as pessoas ainda o chamavam de distante.
eu disse a ele: eu vou escrever você, porque eu preciso escrever os outros, mas eu falho na minha tarefa, porque tem tantos quartos ainda não explorados e eu não sou nenhum escobar que chega escancarando as janelas.
mas eu
posso falar sobre
o escritor que queria mais, de si mesmo e daquilo que os outros costumavam oferecer, e merecia mais; e podia ter mais.
eu escrevo sobre escrever
você escreve sobre ser
existe alguma familiaridade nisso, como andar de mãos dadas até em casa, carregando os sapatos nas mãos porque os pés estão com machucados, nada além de silêncio e murmúrio da rua
eu diria que você é um bom personagem, e que um dia eu gostaria de te escrever melhor do que isso.

(se todos os seus personagens carregam uma parte sua, você está apaixonado por si mesmo?
eu torço para que sim, mesmo sabendo que não é provável —
se você estiver apaixonado por você, teremos algo em comum)

domingo, 20 de novembro de 2016

not a victory march

"como você pode ter certeza?," você pergunta, e eu não sei se é curiosidade ou desafio ou os dois.

não importa, porque eu tenho. eu tenho certeza que não seria eu, em nenhum universo paralelo, como eu tenho certeza de que não serei eu, agora, como eu tenho certeza de que vai passar alguma hora e eu apenas tenho que viver até que passe. quando você está atravessando o inferno, continue caminhando, não é assim que dizem? essa é minha marcha que não é da vitória, que nunca vai ser da vitória e cuja glória eu só irei compreender totalmente quando um dia acordar e perceber que não há mais aqui dentro o que há agora e que todos os sentimentos se transformaram. eu sei que isso vai acontecer, porque eu já vi acontecer. amizade virar paixão virar amor virar dor virar raiva virar nada voltar ao que era antes. parece que eu estou sempre me apaixonando nas mesmas circunstâncias, mesmo que por pessoas diferentes. amizade, paixão, amor, raiva. nada. alguns pararam em nada. alguns pararam em raiva. eu queria ter uma boa compreensão dos meus sentimentos ("é vontade de beijar ou de segurar a mão?", ela me perguntou, e com horror eu percebi que era vontade de segurar a mão), para que eu pudesse arranjar uma forma de vivenciá-los menos dolorosamente ou talvez contorná-los ou transformá-los em música de fundo na minha cabeça e não em um show de rock na porta da minha casa. mas quem eu quero enganar. todo mundo já conhece minha natureza, eu sou óbvia e previsível: cicatrizes e tinta, feridas autoinfligidas e machucados ocasionados da distração. eu sou óbvia, eu sou óbvia, eu sou óbvia. é nisso que eu tento me segurar, minha obviedade me promete que uma hora isso vai passar e não vai me machucar tanto. mas não adianta me segurar no futuro em que isso não vai mais doer, porque no presente isso dói, e eu estou vivendo o presente. esse presente ou um presente de uma realidade alternativa em que uma parte de você está alterada, tanto faz. o resultado não seria diferente. não sou eu, nunca seria nem serei eu.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

helpless

é aterrorizante o jeito como ele te ama.

você se dá conta disso quando sua cabeça parece feita de algodão e vocês dois compartilham uma garrafa de vodca no meio da rua, os dedos dele tocam os seus de leve; uma leveza falsa e calculada que a torna mais pesada do que se ele realmente só segurasse a sua mão. é surpreende, você percebe. ele ainda consegue se controlar o suficiente para fazer o gesto parecer casual. você já o conhece bem demais para saber que não há casualidade alguma nisso, vocês dois amigos há tempo demais, você costuma encher a boca pra dizer que ele te conhece, como ninguém conhece ou como você nunca pensou ser conhecido. a estrada vai nas duas direções, por mais que ele tente se esconder. ele tenta esconder os sorrisos, mas eles estão lá, no canto dos lábios. você pensa que poderia foder com ele. e ri. você quis dizer foder-estragar e não foder-trepar, mas se deu conta de que ambos eram verdadeiros. você poderia foder com ele: beijá-lo até os lábios de ambos estarem vermelhos, as barbas de vocês arranhando o rosto um do outro; você poderia deixar marcas no pescoço e nas coxas dele, arranhões, mordidas, uma demarcação de território inútil porque você sabe que ele já é seu, sem você ter pedido ou exigido. você poderia foder com ele: simplesmente fazer tudo isso, sabendo que o seu nome está escrito no coração dele ou qualquer merda assim, mas o contrário não. ou melhor, sim, mas não do jeito que ele queria. é sempre sobre isso, não é? você se pergunta se essa solidão um dia vai findar: é sempre sobre uma pessoa querendo muito e outra pouco. ou ambas querendo muito coisas diferentes, ou ambas querendo pouco a mesma coisa ou uma não querendo mudar enquanto a outra tem uma tonelada de distintas expectativas. as pessoas gostam de metáforas com quebra-cabeças e peças encaixando e você poderia rir disso porque nada nunca encaixa. ninguém nunca encaixa. todos estão em sintonias diferentes, o que torna alguns os vilões da história e outros os herois, enquanto todos só querem que

alguém compreenda?
ou que as batidas de coração finalmente se acalme
ou que a solidão cesse de vez
um fim, de certa forma, um fim de qualquer coisa que pode também significar um começo, já que o tempo é um ciclo e não uma linha

tanto faz, você percebe, porque você está bêbado e nenhum dos seus tópicos de pensamento fazem sentido e seu amigo te ama tanto que dói, em você e nele.

e você percebe com amargura que, pela falta de sintonia para qual a humanidade foi destinada, sempre vai doer mais nele do que em você.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

dois de copas

a percepção é que não vai ser o suficiente
(porque nem todo o amor do mundo seria suficiente para preencher esse buraco)

então é como observar algo de fora, visto de longe. uma compreensão fria e suspensa do desenrolar, caminhar por dentro do rio de águas escuras. eu sei o que há dentro da água. eu só não sei quando irei esbarrar nas coisas dentro dela. pedras. peixes. vidro. sujeira. beleza. lama. então eu caminho com cautela e mergulho de olhos bem abertos, mas é tão escuro que eu só me dou conta do que estou vendo quando já está na minha frente, quando eu já posso tocar nas minhas mãos. eu me sinto confortável e então não me sinto mais e então me sinto novamente, em um ciclo infinito e infindável como o ciclo da água.

eu sei o que vai acontecer
mas eu não sei o que vai acontecer
ou quando vai
ou como vai
ou se vai

é uma certeza muito frágil, tornada ainda mais quebrável pela esperança. a certeza da esperança é forte. ela me diz: aqui você vai encontrar um peixe, e eu estendo a mão procurando escamas, mas não tem nada. a realidade me diz: aqui você irá pisar em uma pedra afiada e eu me preparo para pisar em uma pedra afiada, mas é uma garrafa de vidro quebrada e eu me machuco.

estar pronto pra se decepcionar não significa que a decepção vai te bater mais gentilmente.
eu não sei o que estou esperando, ao mesmo tempo em que eu sei, e tantos indícios me dizem que eu estou certa em continuar afundada até os olhos nessa água. mas é só porque eu já estou nela, só porque eu quero estar nela, de certa forma.

alguém já me disse, com outras palavras, que eu era muito boa em preservar as minhas próprias algemas.

e isso também se tornou uma das inúmeras: eu me prendo as verdades que as outras pessoas disseram sobre mim, até elas se tornarem mais verdadeiras do que aquilo que eu penso que sei sobre mim. eu me seguro nas minhas correntes. elas doem, e eu gosto da dor, e elas me dão segurança, e meu coração tem medo, e eu não quero deixar um lugar até ele estar tão absolutamente contaminado pela minha essência que seja insuportável permanecer nele.

uma hora eu vou embora, é o que eu digo para mim e prometo para a água, uma promessa que eu nem mesmo sei se ela quer ver cumprida (ou melhor, que eu sei que ela não quer, mas eu também não sei), mas não agora.
não agora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

me diz o que é sufoco

[prece feita no corredor da universidade]
por favor, deixa ser eu, por favor, só dessa vez, eu juro que eu não peço mais nada. deixa ser eu, deixa ser eu, por favor, por favor, eu tô aqui, deixa ser eu.

[prece feita com gosto de vinho na boca e grama molhada contra as costas]
não deixa acabar assim. eu não sei, eu não sei mais o que pedir, eu só queria ser mais, mais, mais. por que eu sou tão terrivelmente mesquinha e egoísta? eu poderia só estar satisfeita, e eu rio, porque eu nunca vou estar satisfeita, eu sou mesmo igual a ele, egoísta e egocêntrica, cheia de palavras bonitas pra florear a decadência da verdade. se eu abrir os olhos ele ainda vai estar aqui e eu vou sorrir, eu vou sorrir tanto, e eu vou encarar que a felicidade é tão enorme e tão breve. chama que já vai se apagar, porque nunca vou ser eu e ele vai se afastar e eu vou ter a mera lembrança enevoada que me servirá como lâmina: todo dia eu vou me ferir, com a falsa memória de como seria se fosse eu, ao menos uma vez.

[prece feita entre cinza e fumaça de cigarro]
se não vou ser eu
deixa acabar
se não vou ser eu, por favor, por favor, tira isso de dentro de mim. se não vou ser eu, por que eu ainda insisto no se?, não serei eu, não serei eu, então deixa isso morrer. por favor, por favor, deixa isso morrer.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

i could go anywhere with you

"tú me quiere?"

silêncio.
alguém escreveu uma vez que estar em um telefone era como estar em uma dimensão a parte. estática e silêncio. é engraçado pensar — o seu corpo deitado na cama, talvez, olhos encarando o teto, escuridão ao redor. respiração. a respiração dele também e você não sabe como ele está, mas imagina: deitado, também, ou sentado encarando a cachorrinha descansar encostada à parede. e a dimensão fora disso tudo, a ligação que cruza mais fronteiras do que imaginado. além de paredes, e rios, e cidades e possivelmente pedágios, fronteiras linguísticas também e, especial e particularmente, as suas fronteiras que eram barreiras todas reduzidas a pó no meio da noite, que poderia ter sido tão quieta como qualquer outra, mas não foi, porque o eterno movimento do universo não quis assim.
estática. respiração.

"uhum."
porque é melhor entregar a verdade assim, um murmúrio que soa mais como o som do mar calmo à noite ou talvez do vento ou talvez das estrelas — e ele sente o coração se retorcer e encolher e então expandir, silêncio e silêncio, estática e batidas de coração. o instante suspenso da realidade naquela dimensão que só vocês dois têm acesso. eu apostaria todas as minhas verdades que o coração dele bateu simultaneamente rápido e calmo: rápido porque sim, porque uhum é um murmúrio que afaga o rosto como um sopro segundos antes de um beijo, calmo porque era verdade e ele sabia mesmo antes que fosse dito, mesmo antes de ele saber de fato, é o elemento mágico de um segredo que diz respeito a duas pessoas, não? elas sabem antes de ser sabido, e ele sabia, o tipo de coisa que se sente antes nos ossos, antes que se possa pensar, antes que.

silêncio e estática e respiração.
e o tempo se estica e estica e estica e parece preencher toda a distância que já no mundo. tempo e espaço, os maiores inimigos dos que se amam, finalmente dobrados a vocês: ele fecha os olhos e você também e ele tem medo que você durma de novo porque vocês estão tão cansados e então ele nota que não se importaria em ouvir você dormir — e que na realidade gostaria de poder ver esse instante, os olhos fixos em você, enquanto os seus estivessem se fechando. mas ele só pode ouvir e isso é suficiente, mas também não é.

e você poderia ter perguntado o caminho inverso — e talvez ouvir algo além de um uhum, ou talvez ouvir o mesmo murmúrio que soaria como carinho, ou talvez ouvir o silêncio da verdade, mas você não perguntou, pontas dos dedos formigando e olhos brilhando no escuro. não, você não perguntou, porque a verdade é tão bela quanto é terrível, e você a conhece antes mesmo de ele anunciá-la e você sabe que a verdade dita em voz alta muda ainda mais os conceitos de tempo e espaço.

mas vocês estão em outra dimensão, e não haveria problema em perguntar, porque todas as estrelas se dobrariam apenas para que você pudesse imaginar que ele também estava lá.

(e ele está — em silêncio e em estática.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

and i know that it's so cliche to talk about you this way

meu coração muito acelerado enquanto eu vou andando até o desembarque do aeroporto de salvador, as portas automáticas se abrem ao mesmo tempo que os nossos sorrisos, meus passos apressados percorrem os poucos metros de distância entre nós, depois de tanto tanto tanto tempo. a gente se abraça. você chora, eu peço pra que não chore, a gente vai comer; na verdade, a gente vai sentar, porque toda a fome que eu tava é substituída pela constatação de que você é linda linda linda; o cabelo imponente, os olhos da capitu, o nariz engraçadinho, a boca bonita, o colo lindo, e os pelos do suvaco, meu deus, meu sorriso se alargava sempre com essa pequena grande transgressão social. eu te dou seu presente, você me diz "pepinos"; então está mesmo acontecendo, eu estou te olhando admirada e abobalhada. e então--

(isso estava nos meus rascunhos há tempo demais
e a realidade me faz sorrir e chorar muito.)

você longe, muito longe. o vestido é azul, acima dos seus joelhos, as alças são finas e eu amo seus ombros. longe. você dá um passo para o lado e para o outro e rodopia, e sorri e - minhas frases são todas incompletas. minhas mãos estão suadas e eu queria poder te tirar pra dançar, você e seu vestido azul e rodado, mas não acho que vão aceitar ver a gente dançando. eu imagino nossos vestidos rodopiando juntos. o meu tem mangas e é preto e eu sou discreta, cabelo preto preso num coque, vestido preto, sapatos pretos. você sorri o sorriso mais lindo e todos os homens te acham linda e provavelmente as mulheres também. talvez a maioria das mulheres daqui te achem linda de um jeito diferente do meu - o meu jeito dói no fundo do meu peito e afunda meu coração dentro da minha barriga. você é a pessoa mais linda do mundo, eu repito dentro da minha cabeça e dói, dói, dói.

if i ever feel better

por uns instantes, eu senti o pânico de não saber o que dizer.

é como tropeçar: aquele pequeno segundo de susto em que você não tem a menor certeza se vai ser capaz de permanecer em pé ou se se seus joelhos e palmas das mãos serão marcados pelo toque áspero do asfalto. eu olhei nos seus olhos (só dentro da minha cabeça, em que é surpreendente o quão bem registrados eles estão, enormes, sanpaku, emoldurados por pequenas espirais ou por espiral nenhuma. eu me perco dentro desses parêntese porque me lembro tão bem dele que devo agradecer a alguém essa memória de entalhe em pedra: seus olhos e as mudanças que neles se operaram pelos seis anos que eu te vi) e não soube o que dizer e isso me pareceu, essencialmente, deslocado. formei as palavras no ar: eu não sei o que dizer. antes seria uma admissão tranquila. não sei o que dizer, porque não preciso dizer nada. você me conhece como conhece as ruas da sua cidade. agora eu não sei o que dizer e isso me apavora. eu me agarro em possíveis lembranças, como se fossem correntes: eu sou eu, ainda, mas eu também não sou mais o que eu era; você também não é como você era e eu te disse que essa era a você mais você, você genuinamente você, e eu rio comigo mesma com lágrimas nos olhos porque bentinho se afastou de capitu e quando voltou ela era ela como nunca tinha sido. você é você é você é você. acho que tem tanta você pra eu descobrir de novo agora e tentar entender e mapear, mas também tem tanta ou tão pouca eu que eu não consigo--

eu não sei o que dizer.
eu queria conseguir. eu ainda consigo? eu ainda tenho chance de você segurar a minha mão e me mostrar o caminho das pedras que eram tão conhecidas por nós duas? eu queria olhar de novo para o mar com você (aqui, um mar de grama seca e folhas mortas). eu queria, eu queria, eu queria.

que eu não estivesse com essas correntes que me prendem ao passado e que me fazem pensar que eu estou me despedindo, sempre, de novo e de novo. eu não vou me esquecer de você, nunca, porque for all time, mas eu não quero não me esquecer de você por estar sempre tocando a mesma canção na minha cabeça, eu quero.

eu quero não esquecer de você porque a gente vai estar cantando de mãos dadas, em alto e bom som.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis

você respira.

é tão suave, meu amor. você respira e está vivo e isso dura alguns poucos milésimos e se repete por vezes incontáveis, quase infinitas, se nós não estivéssemos tão acostumados em contemplar (e romantizar e aguardar e acolher) a finitude de tudo o que nos cerca. você respira e eu sinto o ar que escapa da sua boca no meu rosto e me pergunto como eu pude chegar perto, tão perto assim, a ponto de sentir em mim tudo o que te mantém vivo: a sua respiração que acarinha a pele da minha bochecha, o seu peito pressionado com tanta força contra o meu que eu finalmente posso acompanhar as batidas do seu coração. eu quero sorrir, e eu sorrio, meus olhos abertos que enxergam os seus fechados na escuridão. eu posso sentir o calor da sua pele, o seu coração anda fazendo um bom trabalho em te manter vivo; eu rio comigo mesma pensando que deveria parabenizar todas as suas células e órgãos por te manterem de pé; eu penso que deveria agradecer a qualquer entidade que seja que brinque com nosso universo. não, não é uma questão de controle, não acho que o universo nos controla e cria um destino, mas não é bonito pensar assim? que meus joelhos ralados encontrariam um dia afago e sossego nos seus dedos cheios de pequenas cicatrizes. é tudo feito pela memória, é claro, tudo tinta invisível. eu me machuco nos joelhos por correr demais, cair demais, tropeçar sempre foi a minha sina. você se machuca nas suas mãos, porque quer se controlar demais, está cansado demais, não aguenta segurar mais. eu me pergunto se é uma ilusão: você realmente está tentando amenizar meus machucados ou eu apenas quero ver dessa forma? porque eu estou tentando amenizar os seus, e colocar band-aids em feridas que você me murmura que já sararam. eu me perco em todas as palavras que eu tenho a dizer porque nenhuma é suficiente (nunca são, mas eu sempre tentei fazer com que fossem): eu quero falar que você respira e isso é um milagre. eu quero falar que nos encontramos e esse é outro, e meu, meu milagre particular, guardado dentro do meu coração. não existe destino, eu repito dentro da minha mente, não existe destino e é apenas a aleatoriedade do universo que me faz te ter entre meus braços, e eu sorrio com meus dentes arranhando a sua pele porque de todas as aleatoriedades com as quais eu me deparei, essa certamente entrará naquela estante em que eu guardo as mais especiais. é tão suave, não é? é tão frágil e logo será só memória, está acontecendo e deixou de acontecer no instante seguinte. eu tento guardar para mim todos os detalhes, eu sou ávida e egoísta, eu preciso memorizar cada parte a cada instante para poder voltar para eles depois, vezes demais, mais vezes do que o que eu consideraria saudável. você deveria saber: você mesmo me disse que eu não amo nada tranquilamente; eu não sei como seria diferente com você. então eu me apego a algo que eu sei que em breve irá acabar, e é pura teimosia minha comigo mesma. meu coração, pobre coitado, me repete que eu deveria saber me cuidar, e que eu deveria ter calma, e que tudo isso uma hora irá passar. minha cabeça, tirana e emocional, me incentiva a aprender: o jeito como sua barriga retrai quando eu toco em um lugar, ou como você respira perto do meu ouvido, ou como seus lábios são tão suaves beijando toda a linha do meu maxilar; eu marco a ferro em brasa a lembrança da sua testa contra a minha, o seu nariz esfregando o meu, sua boca aberta para receber a minha como seu coração nunca estará para me receber. é tão suave e tão frágil, existe em um instante e depois foi embora como areia ao vento, e eu não posso segurar todos os grãos em minhas mãos. logo eles vão embora também. logo tudo o que eu me esforcei para aprender irá esvanecer também.

mas.
você respira.
e por enquanto
isso é suficiente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

eu me pergunto se você se lembra o quão consciente eu sou
(se você se lembra que quando eu olho no espelho
eu só vejo os meus erros
e os machucados que eu fiz a outras pessoas
porque os meus machucados
eu sou capaz de perdoar)

e eu me pergunto se você sabe que eu sei que eu errei
e que eu não posso me desculpar (porque seria em vão, porque eu não mereço ser desculpada)

eu me pergunto se você sabe que eu sei que eu errei.
eu me pergunto isso vezes demais.
eu me pergunto também se nós concordamos em qual foi o meu erro:
foi o que aconteceu?
foi contar a você que aconteceu?
ou um é realmente inseparável do outro? porque eu nunca fui boa em esconder nada de você

eu me pergunto se houveram erros além desses
(você se sentiu abandonada?
você se sentiu deixada sozinha?
você se sentiu deixada de lado?
e eu percebo que eu fiz
você se sentir todas essas coisas
e isso também entra na lista dos meus erros)

eu penso em separações
aos poucos, e então de uma vez
era o nosso grande medo, não era?
você ainda acredita
ou seria capaz de acreditar
que eu tinha esse medo também?

eu me pergunto se você me odeia,
ou não gosta mais de mim,
ou sente raiva de mim,
ou apenas se sente mal
em pensar que eu continuo existindo
e que eu manchei você
e que eu manchei o que eu era pra você
e que eu manchei treze meses de afeto
em um mês de terror

eu me pergunto se até a minha culpa agora te soa falsa
mas você ainda me conhece
(será que você pensa assim?
ou será que eu destruí isso também?)
pra saber que a culpa é um corvo que canta no meu ombro
o dia inteiro

eu me pergunto se você limpou os cacos
que eu devo ter deixado em você quando tudo se quebrou
e se um dia você vai olhar para as cicatrizes sem odiá-las tanto
(eu me pergunto se o seu nunca mais foi
realmente
nunca mais)

eu me pergunto se eu tenho o direito de me sentir mal
mas não é um direito
e está além do meu controle
e eu me sinto mal por mim mesma
e pelos erros que eu cometi
e não por você
nunca por você

eu me pergunto se eu ainda posso pensar em você
ou se isso também seria machucar você

(eu não me pergunto se você irá me desculpar
porque você não deve,
a não ser que faça bem a você
desculpar alguém que tocou fogo em ruínas

eram ruínas mas eram nossas
eram bonitas, ainda

mas eu me pergunto se eu irei me desculpar
algum dia.
eu me pergunto se eu mereço meu perdão
e o corvo que é a culpa sozinho me deixa concluir
que nunca mais)

domingo, 19 de junho de 2016

bruise

o primeiro você quase nem viu.

não sentiu, certamente: só se deu conta quando se despiu para se banhar e olhou para a própria coxa. era pequeno, em tons de roxo e verde que te lembravam náusea, por alguma razão. houve aquela breve pausa em que tenta se lembrar como aquela pequena nebulosa foi aparecer logo ali. não se lembrou, só deu de ombros e o aceitou como parte de si, antes de se entregar a água quente.

depois vieram os outros. você se surpreendia com eles a cada vez que olhava para a própria pele, perguntando-se como poderia ser tão distraída, nem via todos aqueles machucados surgindo. roxo, vermelho, verde, amarelo, tons escuros de cores que te lembravam coisas boas (flores, morangos, plantas, sol). as pontas dos dedos cutucavam um ou outro de vez em quando, você tinha que se certificar se eles eram reais, se eles eram realmente machucados, se eles doíam.

eles doíam,
e o mais estranho de tudo:
eles não sumiam.

então você olhou para a própria coxa e estava lá, exatamente como você o vira da primeira vez. e você não tinha mais paciência para contar quantos eram os hematomas e nem para transformá-los em imagens bonitas de nebulosas. encaro-os como apenas machucados e isso a encheu de tristeza, por não saber como eles tinham se formado, como poderiam ser tantos e, principalmente, por não saber como poderia tê-los evitado.

mas eles já estavam lá e você ainda tinha milhas demais a percorrer, então só os cobriu como pode e tentou não pensar mais no assunto.

(mas ah, como doíam.)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

this is the beat of my heart ou lira dos vinte anos ou psicologia de um vencido

ando com frequência pensando que esse ano eu morri, mas que ano que vem eu não morro. faço o caminho da faculdade pra casa e cada passo é uma pequena reza ao tempo. penso que vou morrer porque, afinal, tudo acaba. mas tudo bem, tudo bem. acho que não fiz dos meus dezenove anos um ano ed kennendy, o que significa que eu posso acabar sem fazer dos meus vinte um ano ultrarromântico, o que possivelmente é uma coisa boa. tudo bem. suspiro resignado. o barulho do sereno bate na janela. deve ter alguma alteração que eu não estou captando. ou continua tudo igual mesmo?


(isso foi escrito em 12/11/2014
2015 foi um ano ultrarromântico)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

noah's ark can't save us all

can we forgive the things we've done, take our things and move along? 

você se lembra como é escrever?

você se lembra de como escrever era a única coisa possível  você se lembra de quando as palavras pesavam em costelas e ombros e em pés e era como se escrever fosse a única saída? não havia mais nada a ser feito e as palavras eram enigma e solução. escrever. mais do que colocar pra fora: colocar pra fora implica em tirar de dentro, mas ainda ficava uma parte dentro de você. escrever era pensar em palavras como tatuagens e cicatrizes, palavras são as maiores marcas que podem ser deixadas. escrever era a única forma de castigo e absolvição, escrever era punição e premiação. escrever: a forma de encontrar algum tipo de salvação. escrever era ser deus e se perdoar e perdoar os outros. escrever, criar e destruir. escrever era transformar em passado tudo que estava presente. escrever era amor. 

eu não lembro como era, mas está aqui, rondando. 
(espero que nunca vá embora)
— uma palavra na ponta da língua, que você não consegue formular, mas sabe que ela está lá. 

esse é o meu pedido de desculpas para eu mesma de anos atrás, liesel meminger amando as palavras e as usando. 
esse é meu pedido de perdão por todas as palavras que eu deixei passar pela minha cabeça sem nunca transcrever e sem nunca dar uma chance para que elas viessem à luz.
essa também é minha tentativa de voltar.