terça-feira, 4 de outubro de 2016

i could go anywhere with you

"tú me quiere?"

silêncio.
alguém escreveu uma vez que estar em um telefone era como estar em uma dimensão a parte. estática e silêncio. é engraçado pensar — o seu corpo deitado na cama, talvez, olhos encarando o teto, escuridão ao redor. respiração. a respiração dele também e você não sabe como ele está, mas imagina: deitado, também, ou sentado encarando a cachorrinha descansar encostada à parede. e a dimensão fora disso tudo, a ligação que cruza mais fronteiras do que imaginado. além de paredes, e rios, e cidades e possivelmente pedágios, fronteiras linguísticas também e, especial e particularmente, as suas fronteiras que eram barreiras todas reduzidas a pó no meio da noite, que poderia ter sido tão quieta como qualquer outra, mas não foi, porque o eterno movimento do universo não quis assim.
estática. respiração.

"uhum."
porque é melhor entregar a verdade assim, um murmúrio que soa mais como o som do mar calmo à noite ou talvez do vento ou talvez das estrelas — e ele sente o coração se retorcer e encolher e então expandir, silêncio e silêncio, estática e batidas de coração. o instante suspenso da realidade naquela dimensão que só vocês dois têm acesso. eu apostaria todas as minhas verdades que o coração dele bateu simultaneamente rápido e calmo: rápido porque sim, porque uhum é um murmúrio que afaga o rosto como um sopro segundos antes de um beijo, calmo porque era verdade e ele sabia mesmo antes que fosse dito, mesmo antes de ele saber de fato, é o elemento mágico de um segredo que diz respeito a duas pessoas, não? elas sabem antes de ser sabido, e ele sabia, o tipo de coisa que se sente antes nos ossos, antes que se possa pensar, antes que.

silêncio e estática e respiração.
e o tempo se estica e estica e estica e parece preencher toda a distância que já no mundo. tempo e espaço, os maiores inimigos dos que se amam, finalmente dobrados a vocês: ele fecha os olhos e você também e ele tem medo que você durma de novo porque vocês estão tão cansados e então ele nota que não se importaria em ouvir você dormir — e que na realidade gostaria de poder ver esse instante, os olhos fixos em você, enquanto os seus estivessem se fechando. mas ele só pode ouvir e isso é suficiente, mas também não é.

e você poderia ter perguntado o caminho inverso — e talvez ouvir algo além de um uhum, ou talvez ouvir o mesmo murmúrio que soaria como carinho, ou talvez ouvir o silêncio da verdade, mas você não perguntou, pontas dos dedos formigando e olhos brilhando no escuro. não, você não perguntou, porque a verdade é tão bela quanto é terrível, e você a conhece antes mesmo de ele anunciá-la e você sabe que a verdade dita em voz alta muda ainda mais os conceitos de tempo e espaço.

mas vocês estão em outra dimensão, e não haveria problema em perguntar, porque todas as estrelas se dobrariam apenas para que você pudesse imaginar que ele também estava lá.

(e ele está — em silêncio e em estática.)

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