por uns instantes, eu senti o pânico de não saber o que dizer.
é como tropeçar: aquele pequeno segundo de susto em que você não tem a menor certeza se vai ser capaz de permanecer em pé ou se se seus joelhos e palmas das mãos serão marcados pelo toque áspero do asfalto. eu olhei nos seus olhos (só dentro da minha cabeça, em que é surpreendente o quão bem registrados eles estão, enormes, sanpaku, emoldurados por pequenas espirais ou por espiral nenhuma. eu me perco dentro desses parêntese porque me lembro tão bem dele que devo agradecer a alguém essa memória de entalhe em pedra: seus olhos e as mudanças que neles se operaram pelos seis anos que eu te vi) e não soube o que dizer e isso me pareceu, essencialmente, deslocado. formei as palavras no ar: eu não sei o que dizer. antes seria uma admissão tranquila. não sei o que dizer, porque não preciso dizer nada. você me conhece como conhece as ruas da sua cidade. agora eu não sei o que dizer e isso me apavora. eu me agarro em possíveis lembranças, como se fossem correntes: eu sou eu, ainda, mas eu também não sou mais o que eu era; você também não é como você era e eu te disse que essa era a você mais você, você genuinamente você, e eu rio comigo mesma com lágrimas nos olhos porque bentinho se afastou de capitu e quando voltou ela era ela como nunca tinha sido. você é você é você é você. acho que tem tanta você pra eu descobrir de novo agora e tentar entender e mapear, mas também tem tanta ou tão pouca eu que eu não consigo--
eu não sei o que dizer.
eu queria conseguir. eu ainda consigo? eu ainda tenho chance de você segurar a minha mão e me mostrar o caminho das pedras que eram tão conhecidas por nós duas? eu queria olhar de novo para o mar com você (aqui, um mar de grama seca e folhas mortas). eu queria, eu queria, eu queria.
que eu não estivesse com essas correntes que me prendem ao passado e que me fazem pensar que eu estou me despedindo, sempre, de novo e de novo. eu não vou me esquecer de você, nunca, porque for all time, mas eu não quero não me esquecer de você por estar sempre tocando a mesma canção na minha cabeça, eu quero.
eu quero não esquecer de você porque a gente vai estar cantando de mãos dadas, em alto e bom som.
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