um dois três um dois três passos até a cama cuidado pra não esbarrar na quina ai merda meu joelho puta que pariu. bom pelo menos eu estou na cama agora e minha cabeça pensa demais, como é possível ter tantos pensamentos em uma mente só. eu tô me atropelando, eu mesma tô me sufocando. eu sempre faço isso, sóbria ou bêbada. eu sempre me atropelo e me sufoco e todo mundo sabe que eu sou que nem aquela música, e tempo e medo não fazem o menor sentido para mim, porque eu decido a hora de tudo. eu tenho pressa de viver, como outro cantor colocaria, mas parece que minha pressa é pior, sozinha, quinze passos à frente de todas as pessoas que eu gostaria de estar ao lado. eu queria poder ir no mesmo ritmo que todo mundo. eu queria ser normal.
pelo outro lado, tem você.
eu busco um conforto imaginário nas suas palavras, talvez alguém que me diga que eu não preciso ser normal, mas não, você me pede calma, eu rio, eu quero dizer: eu não tenho calma, nunca estive calma, nunca estarei calma, a parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo, mas eu não digo, minha cabeça roda, e eu não sei se é o álcool ou se é sua voz, um sorriso que se estende no meu rosto, chega até aos meus olhos, chega até a ponta dos dedos que chegam até você e eu queria que eu pudesse tocar na sua alma como você toca na minha, mas eu sou apressada e cheguei rápido demais, não foi, meu amor? o sinal estava fechado ainda, ou melhor, uma porta, ah, rápido demais demais demais, eu digito igualmente rápido, um monte de perguntas na ponta da língua dentro do coração, eu repito todos os meus vãos pensamentos indesejados: você merece, você merece, você merece.
por outro lado, eu.
que não mereço nem nunca mereci, e talvez olhos se revirem a essa constatação, porque gostam tanto de mim, gostam tanto da criatura apressada que faz o próprio tempo e espera que as estradas se curvem aos próprios pés, mas não dá pra se apaixonar por isso, não dá pra se apaixonar pelo desastre ambulante, dá pra você gostar de longe ou de perto, com muito tempo, e eu não dei tempo algum, ah, como eu sou patética, como eu sentia nos meus ossos, como eu sabia porque eu sempre sei, não dá pra ser eu, nunca.
por outro lado.
por outro lado, você.
por outro lado, você.
e você é tão inevitável, meu-bem-que-outros-cantores-chamam-baby, você tem tanta força e meus olhos não conseguem desviar e você vai me dizer que meus olhos não têm que desviar de nada porque eu nem te vejo de verdade e eu vou rir e te apresentar a idéias, metáforas, figuras de linguagem; meus olhos não desviam, meus pensamentos não saem de perto, é como deixar música tocando enquanto fazemos outras coisas e se pegar cantarolando sem saber há quanto tempo se cantarola. é uma música nova, eu sei, ainda estou aprendendo ritmo e letra, mas é você, é você e seu jeito de escrever, de se expressar, é sua voz tão cheia de sentimento que parece que o chão se desfez debaixo de mim, é sonhar que está caindo, inevitável, eu repito pra mim mesma a fim de me justificar, eu preciso de alguma defesa, certo? senhores do júri, me acompanhem: ela não poderia fazer diferente porque ele era inevitável. ela não poderia fazer diferente porque ela é maluca. ela não poderia fazer diferente porque não se faz diferente com quem se guia por sentimentos.
por outro lado...
por outro lado, você também não poderia.
por outro lado, você também não poderia.
e é, tristemente
inevitável.
inevitável.
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