o primeiro você quase nem viu.
não sentiu, certamente: só se deu conta quando se despiu para se banhar e olhou para a própria coxa. era pequeno, em tons de roxo e verde que te lembravam náusea, por alguma razão. houve aquela breve pausa em que tenta se lembrar como aquela pequena nebulosa foi aparecer logo ali. não se lembrou, só deu de ombros e o aceitou como parte de si, antes de se entregar a água quente.
depois vieram os outros. você se surpreendia com eles a cada vez que olhava para a própria pele, perguntando-se como poderia ser tão distraída, nem via todos aqueles machucados surgindo. roxo, vermelho, verde, amarelo, tons escuros de cores que te lembravam coisas boas (flores, morangos, plantas, sol). as pontas dos dedos cutucavam um ou outro de vez em quando, você tinha que se certificar se eles eram reais, se eles eram realmente machucados, se eles doíam.
eles doíam,
e o mais estranho de tudo:
eles não sumiam.
então você olhou para a própria coxa e estava lá, exatamente como você o vira da primeira vez. e você não tinha mais paciência para contar quantos eram os hematomas e nem para transformá-los em imagens bonitas de nebulosas. encaro-os como apenas machucados e isso a encheu de tristeza, por não saber como eles tinham se formado, como poderiam ser tantos e, principalmente, por não saber como poderia tê-los evitado.
mas eles já estavam lá e você ainda tinha milhas demais a percorrer, então só os cobriu como pode e tentou não pensar mais no assunto.
(mas ah, como doíam.)
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