quarta-feira, 2 de novembro de 2016

dois de copas

a percepção é que não vai ser o suficiente
(porque nem todo o amor do mundo seria suficiente para preencher esse buraco)

então é como observar algo de fora, visto de longe. uma compreensão fria e suspensa do desenrolar, caminhar por dentro do rio de águas escuras. eu sei o que há dentro da água. eu só não sei quando irei esbarrar nas coisas dentro dela. pedras. peixes. vidro. sujeira. beleza. lama. então eu caminho com cautela e mergulho de olhos bem abertos, mas é tão escuro que eu só me dou conta do que estou vendo quando já está na minha frente, quando eu já posso tocar nas minhas mãos. eu me sinto confortável e então não me sinto mais e então me sinto novamente, em um ciclo infinito e infindável como o ciclo da água.

eu sei o que vai acontecer
mas eu não sei o que vai acontecer
ou quando vai
ou como vai
ou se vai

é uma certeza muito frágil, tornada ainda mais quebrável pela esperança. a certeza da esperança é forte. ela me diz: aqui você vai encontrar um peixe, e eu estendo a mão procurando escamas, mas não tem nada. a realidade me diz: aqui você irá pisar em uma pedra afiada e eu me preparo para pisar em uma pedra afiada, mas é uma garrafa de vidro quebrada e eu me machuco.

estar pronto pra se decepcionar não significa que a decepção vai te bater mais gentilmente.
eu não sei o que estou esperando, ao mesmo tempo em que eu sei, e tantos indícios me dizem que eu estou certa em continuar afundada até os olhos nessa água. mas é só porque eu já estou nela, só porque eu quero estar nela, de certa forma.

alguém já me disse, com outras palavras, que eu era muito boa em preservar as minhas próprias algemas.

e isso também se tornou uma das inúmeras: eu me prendo as verdades que as outras pessoas disseram sobre mim, até elas se tornarem mais verdadeiras do que aquilo que eu penso que sei sobre mim. eu me seguro nas minhas correntes. elas doem, e eu gosto da dor, e elas me dão segurança, e meu coração tem medo, e eu não quero deixar um lugar até ele estar tão absolutamente contaminado pela minha essência que seja insuportável permanecer nele.

uma hora eu vou embora, é o que eu digo para mim e prometo para a água, uma promessa que eu nem mesmo sei se ela quer ver cumprida (ou melhor, que eu sei que ela não quer, mas eu também não sei), mas não agora.
não agora.

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