terça-feira, 2 de dezembro de 2014

but i keep it for good luck

eu senti vontade de parar de beijá-la, só pra dizer que ela deve ser uma dessas pessoas que as outras sentem sorte de estar beijando. como se houvesse tido uma grande conjunção dos astros pra que eu pudesse beijá-la, porque eu sempre fui a pessoa das escolhas erradas, então não tinha como por minha causa eu estar beijando ela. até mesmo se pensarmos nos eventos e causas e efeitos que levaram ela a querer me beijar - será que eu engoli um gerador de improbabilidades infinitas? mas quem parece ter um coração de ouro é ela, e não eu. eu deveria parar de beijá-la pra dizer um monte de coisas que provavelmente eu não poderei dizer depois. não que eu não acredite em amor nem nada do gênero, eu até acredito, mas acredito mais ainda em fins. como uma pessoa que acredita tanto em fins pode acreditar numa duração muito longa pra algo? eu sei que falar pra ela que beijá-la deve dar mais sorte que arco-íris e trevos e ferraduras e aqueles colares que vendem na feira com figas e pimentas e olhos provavelmente gerará um arrependimento futuro, do nível choro na madrugada ouvindo o transatlanticism pela oitava vez e pensando que não deveria ter dito nada, que dói menos o quanto menos as pessoas sabem que nos afetam. mas e se ninguém mais falar pra ela que é a maior de todas as sortes sentir os braços dela e mãos nas costas e corpo passando calor? de um jeito totalmente não erótico, eu queria poder dizer que ela é quente, muito quente. porque parece que ela te acolhe e eu deveria abrir os olhos e dizer abra seus olhos, porque não quero perder um segundo nem uma sensação desse instante suspenso no universo em que eu só posso sentir alegria. eu tenho que falar porque ela tem que saber, e até o fim dos meus dias eu vou me arrepender de não ter dito que qualquer pessoa que a boca dela tocasse, ou as mãos segurassem, ou os ouvidos ouvissem com atenção; qualquer pessoa com quem ela se importasse e se abrisse e se mostrasse era uma pessoa coberta de sorte pelo resto da vida. eu devia parar de beijá-la, só pra dizer que o amor dela inunda o universo inteiro.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

réquiem

é estranho quando a gente fala e só recebe silêncio e esse silêncio não é proposital. a gente fala na cabeça e fala alto só, e fala olhando pra lâmpada do quarto e pras estrelas mortas pela janela. e silêncio. acho que uma vez te disseram que você tinha olhos traquinas, ou algo assim, uma palavra bem específica sobre seus olhos. eu sorrio quando lembro porque faz com que eu perceba que você é querida. eu imagino você e seus olhinhos de estrelas na sua livraria. sua livraria não vai ter silêncios, que livraria tem silêncio hoje em dia? mas talvez numa tarde de domingo ela seja silenciosa e você passe as mãos por algum livro e pense no silêncio sem retorno. o belchior cantou que aprendeu com a dor a alegria. uma vez eu li que o universo cuida de todos os seus pássaros. será que você tem olhos de pássaro? olhos de assum preto, com silêncio e música e dor. espero que seus silêncios passem a doer menos com o tempo. não sei se certas dores passam, ou só adormecem por um tempo e retornam ou se ficam constantes e diárias, quem sabe desbotando com o tempo. as palavras nos livros vão sumindo nas páginas, mas por vezes não somem da nossa cabeça. eu não sei, moça dos olhos bonitos. queria te oferecer flores ou palavras ou uma xícara de café, mas - no silêncio, eu te abraço.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

em uma realidade alternativa

eu não sei fumar, então estou com medo de parecer ridícula com esse cigarro entre os dedos. ela tá me ensinando a tragar, mas eu não consigo aprender. é difícil puxar a fumaça desse jeito, então acho que ou eu preciso de prática ou eu vou ser fumante só pra estragar os dentes. eu peço pra que ela me conte histórias dela e histórias do namorado dela, só pra manter a boca dela ocupada. eu passo o cigarro pra ela e ela fuma direito.

então o cigarro está comigo de novo, e eu tento parecer um pouco como a beleza do que faz mal. me falaram que eu combinava com cigarros, quando eu coloquei um na mão no ano-novo, só de brincadeira. me sinto com doze anos, sem saber o que fazer direito. mas tenho dezenove e estamos no último andar do prédio - que nem chega a ser um andar de verdade, penso, olhando pro céu entre a grade, sentada naquele chão de pedra áspera.

"você fica muito descolada fumando," ela diz.

eu olho pra ela. se existir mesmo o tal do olhar escorpiano, espero estar conseguindo fazê-lo agora. seguro o cigarro com o indicador e o polegar, não entre o indicador e o médio. me arrasto um pouco, arranhando de leve as pernas e mãos no chão e fico bem perto dela e dos olhos imensos que não encostam na pálpebra. olhos sanpaku, os japoneses anunciaram uma morte trágica pra ela e as posições dos astros definiram que eu não ia ter medo de contato com a morte.

"me beija, então," eu digo bem séria, como se houvesse alguma conexão entre eu estar descolada fumando e ela querer me beijar. não é essa a conexão óbvia, mas ela está ali, em algum lugar, envolvendo as nossas peles que às vezes parecem uma pele só, de tanto que a gente sente pela outra. ela tira o cigarro da minha mão - eu sou principiante, acho que ela não vai me querer queimada - e me beija, então.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

i've got a million things that i need to do, but they're all secondary

de repente me deu um medo.

ou talvez não tão de repente assim. de repente, o medo voltou. um medo absurdo, sem sentido, sufocante, e eu já estou cansada dele, fecho os meus olhos e peço pra ele por favor ir embora o mais rápido possível. de onde que você surgiu?, eu quero perguntar, porque foram anos sem essa existência pra ele nascer e crescer assim tão rápido. por favor, suma o tão rápido quanto surgiu.

(ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora)

(ela já me disse que não vai embora então ela não vai embora)

(essa promessa já foi feita há muito tempo, antes mesmo de existir tempo)

é difícil ser uma otimista medrosa.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sobre bruxas

parece que as labaredas estão queimando ainda, lambendo os pés e as bochechas, e os gritos não param de sair. parece que tem o segredo compartilhado entre irmãs, e a certeza de que vai continuar, independe de a casa ter sido marcada e o inquisidor ter sorrido enquanto torturava uma bruxa capturada. o segredo revelado, a vergonha pública, o choque da vila - mas aquela bruxa, ela estava entre nós? e é triste e engraçado, porque as bruxas faziam feitiços para a colheita e pra sarar feridas e também, por que haveria de se condenar?, pra causar a dor daqueles que já causaram muita dor. 

alguns riem e pensam na humilhação, e as bruxas sentem a humilhação e as lágrimas enquanto a pera destrói úteros e o açoite marca e machuca as costas. 

mas ainda assim
sempre existe outra bruxa

e as labaredas terminam o trabalho, mas tudo bem. porque mesmo que uma termine, ainda haverá outra. 

and i know i'm naive, but if anything that's what's going to save me

eu deitei no chão pra ver o mundo da mesma altura da minha cachorra, e ele me pareceu imenso.

a gente estava nos balanços com dez anos de idade, e éramos três. a gente estava no quarto e tínhamos catorze anos e éramos sete. a gente esteve em muitos lugares, e já fomos duas e dois, e três, e muitas vezes quatro e cinco. agora eu estou aqui e sou uma só. eu perguntei pra ela se não tinham aquele brinquedo em salvador, e ela disse que não, então ela ganhou um. e eu também descobri que pardal só tinha no ceará. eu mostrei pra ela a praça verde do dragão do mar. ela chorou na hora de ir embora, eu não.ele começou a chorar quando a gente tava dançando e eu comecei a rir porque eu não conseguia chorar. ele falou que aquele dia, que era o último dia, tinham sido um bom dia. a gente passou as mãos no rosto um do outro e se beijou, e alguma coisa devia ter terminado ali. o primeiro e último.tinha alguma coisa sobre o ano-novo, e esse ano vai ser diferente. eu não tinha chorado antes de ir embora, mas eu já chorei depois que fui. fico pensando se doía mais antes. já tinha me perguntado, sabe quando dizem que quando você tá apanhando muito, uma hora para de doer? eu fico chorando e chorando e chorando e às vezes eu nem sei porque, outras vezes acho que sei, sim, só não quero olhar. é involuntário a gente ser uma ilha? porque por mim eu seria uma árvore. uma vez ela me disse que baobás eram coisas tristes, mas seria bom dividir um pouco dos seus átomos com um baobá. nasci debaixo de um sol que determinou que eu ia sentir demais e por vezes eu sinto raiva disso e queria só segurar e controlar um pouco, mas parece que o lance é aceitar que como você é agora não é como você vai ser sempre, por mais que você ache que sempre é a mesma pessoa. eu sinto que eu não mudei nada dos quinze anos pra cá, mas existe algo em mim que grita que eu mudei, sim, sem saber se pro bem ou pro mal. e as pessoas ao meu redor, umas ficaram e outras não. será que eu criei uma couraça de espinhos? eu olho pra esses espinhos todos e penso em como eles surgiram aqui, porque em algum lugar não havia espinhos, só feridinhas e cicatrizes, e eu lembro de a gente - cinco - andando até a casa perto do colégio e cantando que não tinha aprendido a se render, que caia o inimigo então.

eu deitei no chão pra ver o mundo, e ele é tão imenso! 

i'll know the way back if you know the way

eu tenho que escrever pra
não morrer
e
as palavras pararem
de ficar me apertando
mas
tudo que eu escrevo soa
difícil
errado
e
forçado
palavras por favor
me ajudem a respirar
de novo.

a moça disse que era feia e eu fui lá e dei uma flor pra ela

ela disse que não havia nada que a lembrasse, que estava irremediavelmente perdida, que as coisas estariam fora do lugar e no fim: tudo bem estar fora do lugar e irremediavelmente perdida, pra onde a gente está indo, de qualquer forma? não tem problema não saber onde você tá nem onde vai chegar. é engraçado, bússolas. o nosso norte e o norte magnético. se é o contrário, como a gente pode se gabar de ter se encontrado? e de qualquer maneira a gente tá no espaço, não tem muito pra onde ir. deixa eu ficar um pouco perdida no seu cabelo e no seu sorriso, moça. o universo, ele é imenso e infinito do lado de fora sobre nossas cabeças e do lado de dentro, em algum ponto entre nossa laringe e os rins. parece que me deixa mais calma saber que eu nunca vou ficar calma - vamos pensar nas ondas do mar e em um furacão para fins de metáfora? - então deve haver alguma pequeno e corriqueiro milagre em perceber que as coisas são como elas são, acontecendo ao nosso redor com e sem a gente - and the time will come when you see we are all one and life flows on within you and without you.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

would you still remember me

é notável que eu tenho uma rainha - sei que não sirvo a essa rainha e que provavelmente já me distanciei e muito de onde ela reina. mas eu tenho uma rainha, que me contou sobre como meu coração tinha a realeza de cem mil coroas. ela não escolheu ser minha rainha e eu nem escolhi essa vassalagem que só me atrapalha, apenas aconteceu, de uma maneira que eu pensava que o tempo remediaria - mas não remediou. talvez eu não sinta mais a necessidade de impressioná-la ou obter algum tipo de aprovação, mas a admiração permanece. o que acontece é que eu me apaixonei incuravelmente pelas palavras da rainha e mesmo que nunca mais ouvisse nenhuma palavra dela para mim, as palavras que ela dedica a outras pessoas ou a si mesma bastariam para alimentar o meu amor vassalo. é engraçado como o tempo passa e as coroas parecem ter sido deixadas de lado, e como algumas das minhas lembranças mais alegres envolvem quatro ligações não atendidas durante uma prova de matemática e uma certeza de que ouviria a voz dela, a quilômetros de distância, em breve. tento transformar esse amor todo, há uma certa chateação - depois de todo esse tempo? eu diria meio brava meio brincando e ela talvez sorrisse em reconhecimento. parece que é sempre mesmo. me disseram uma vez que isso não era amor, era a admiração mais profunda, mas como não poderia ser os dois? lembro que riam de como eu ficava vermelha e empolgada falando sobre ela. será que poderia ter sido diferente? se eu não tivesse me apaixonado tão intensamente pelas palavras dela antes de conhecê-la? a ordem dos fatores poderia subitamente alterar o produto. mas nunca saberei. nunca saberemos, nem ninguém saberá, e o universo continuará desse jeito, com essa distância que eu quero quebrar e não consigo. e é agridoce achar que ficamos bem assim.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

eu cantei pra você sobre amor e medo

eu disse pra você tomar cuidado com os duendes e as fadas, porque é mentira que eles são bonzinhos. eles gostam de morder seus dedos dos pés quando você está dormindo. eu disse pra você tomar cuidado com o mar, também, porque o mar gosta de parecer acolhedor, mas talvez ele gostasse tanto de você que não te devolvesse. eu disse que não era pra olhar muito pro céu, que as estrelas iam ferir seus olhos, e eles são preciosos demais para qualquer ferimento. eu segurei a sua mão (e os seus pés), e cuidei do seu cabelo e da sua comida. mas uma parte de mim sempre soube - eu sabia que por mais que eu te avisasse sobre o vento e como às vezes ele carrega as pessoas pra longe, ainda assim, você iria andar de pés descalços no chão e ia deixar a grama deixar marcas em você. eu falei sobre o perigo que era sair por aí, mas você rodopiou e cantou, você sentiu água nos tornozelos, você virou a noite vendo o brilho no céu, você dormiu sem meias. eu avisei que não tinha que ser assim - eu avisei que poesia só servia pra se perder e música para chorar, mas você continuou lendo e escrevendo e cantarolando. eu tentei te fazer ouvir que algodão-doce não é comida pra gente séria e você riu cheia de açúcar ao redor da boca. pedi pra você não correr demais, porque senão você alcançaria a beira do mundo e aí só mais um passo e você estaria no espaço. mas você correu mesmo assim, e chegou no fim do mundo, e olhou pela borda e viu o escuro e voltou pra me contar que não era tão assustador assim. eu apontei pros seus pés e pras mordidas dos duendes e você falou que era um preço pequeno por um pouco de magia. eu fechei os olhos pra não ver você subir em árvores, porque árvores são traiçoeiras - uma hora, deixam você em cima delas e outra você está inconsciente no chão. mas você subiu até o galho mais alto da árvore mais alta e os pássaros todos pararam pra te ver. eu sussurrei pra você ficar, porque ficar é mais seguro - só que fazia tempo que você não me ouvia. e você riu e acenou e correu, e as estrelas viram você cair e se transformar em infinito.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

i have loved you for a thousand years

penso em todas as conexões que esse universo, que cuida de todos os seus pássaros, teve que fazer pra gente acabar juntas nesse espaço territorial - e não apenas isso, para que, além de compartilharmos uma nacionalidade, o que já é coincidente o suficiente, compartilhássemos também o mesmo gosto para escrever coisas - ou todos os caminhos que tiveram de ser traçados e terminaram com você lendo muitas fanfics e por alguma razão, gostando por demais da autora delas. o meu coração cético me diz: só temos isso, não há nada antes e depois que nos envolva, a vida é só essa. nós morremos e acabou. meu cérebro emocional, então, rebate apontando que não há como nós só nos conhecermos há um período de tempo possível de contar nos dedos de uma única mão. tem que haver algo além disso, além da intimidade criada e alimentada a distância; além das mensagens e ligações que trocamos; além dos abraços que demos há quase três anos. esse universo é imenso e brilhante, cheio de caminhos que nem meu cérebro nem meu coração compreendem. ele te colocou aqui e me colocou aqui, e num mar de acontecimentos ocasionados por um gerador de improbabilidades infinitas, fez com que chegássemos ao mesmo lugar por caminhos diferentes. não consigo entender como não estou com você, quando simplesmente sinto que estou com você. deve ser o resquício das outras vidas, que meu coração teima em não acreditar, em que nós dividimos uma cama ou um copo de suco de maracujá. como não acreditar num universo que é ao mesmo tempo furioso e preocupado? como posso acreditar, tendo você presente na minha vida, que o universo não se importa? você existe. você existe! além das nossas palavras escritas, você existe com voz e ações, você existe com pele e cheiro; e eu só consigo pensar que vou ter novamente o privilégio de estar fisicamente com você; depois de quase três anos e mais de mil vidas. espero que o universo me deixe ter sua presença até o fim de alguma dessas duas vidas; mas isso é um tanto mórbido de se falar quando você acaba de entrar na idade mais poética de todas, por motivos literários. espero que você goste. que eu possa continuar com você e contando com a alegria da sua presença e todo esse calor no coração que você me dá. te amo, tanto, tanto; há mil vidas tenho tenho te amado e, certamente, amarei por quantas mais vierem e existirem.

terça-feira, 17 de junho de 2014

alguma coisa sobre empatia, raposas e cabelos coloridos

a lamentação profunda da noite foi o estado de alegria que tomou conta do meu peito. isso soa até meio que desrespeitoso. eu pensei que tinha que estar triste ou pelo menos melancólica e levemente desanimada para isso de escrever dar certo. talvez as palavras estejam saindo de um jeito errado, não sei. mas o que eu estou pensando nessa noite, além da minha viagem depois de amanhã e das provas que eu vou receber, é que é muito bom se sentir ligada as pessoas. ainda que brevemente. veja bem, pequenas conversas que podem se evaporar e não significar nada a qualquer momento; elas acontecem, mas durante o tempo que elas acontecem, elas significam algo. talvez eu não sirva mesmo pra escrever nesse estado de espírito. eu queria dizer que vocês me fizeram me sentir bem hoje. que existe algo - eu não sei explicar o que é, mas existe algo que me faz achar que eu posso confiar em determinadas pessoas, que eu posso me aproximar delas, que eu não vou ser afastada de um jeito traumático e inesperado. é muito difícil que eu me sinta querida por pessoas que não me conhecem há muito tempo. eu não sei o que dizer. nem como agradecer. as risadas que eu dei hoje e o apoio moral prometido podem não ser nada daqui a um tempo, mas estão incrivelmente relevantes até agora. eu queria conseguir escrever melhor. fiquem com essa gratidão tosca e torta minha, de quem tem muito a dizer, mas que não sabe como; de quem queria conseguir explicar o que está pensando e desejando e só consegue terminar o texto esperando que vocês fiquem bem. e que saibam que eu estou aqui, pra qualquer coisa.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

lemony snicket

penso infinitamente na frase que diz que se um escritor se apaixona por você, você não pode morrer. mas você pode e vai. eu acho que essa é a parte legal. inclusive porque meus textos são restritos a caderno e internet. minhas palavras nunca vão alcançar um número gritante de pessoas - mas pra mim, elas alcançam a todas que precisam. até mesmo quando elas ficam marcadas de caneta no meu caderno sem linhas, nos meus cadernos com linhas, em guardanapos e na parte de trás de notas fiscais. pequenas observações que devem se escritas. longos textos. cartas. parágrafos desconexos. às vezes acho que me falta coesão e coerência. começo escrevendo algo, logo depois estou falando de um assunto completamente diferente. como agora. minha mente divaga sobre tantos aspectos que esse texto pode abordar e eu acabo mais fazendo um metatexto do que qualquer coisa. concentração, morgana. só um pouco, pra variar.

se um escritor se apaixona por você, você vai estar presente sempre. existem escritores e escritores, existem escritores que bebem uísque e que bebem guaraná, existem escritores que fumam e escritores que fodem, e escritores que fumam depois que fodem. existem escritores grosseiros e filhos da puta e escritores gentis e carinhosos. existem escritores como existem pessoas, afinal, escritores são pessoas com uma possível dificuldade de expressão oral (nem sempre) e que acham mais fácil se colocar em palavras escritas (quase sempre).

eu nunca me vi como escritora, apesar de saber que... escrevo. nem consigo escrever isso. essa afirmação. "eu sou uma escritora". não são meus escritos, são as coisas que eu escrevo. não são contos, nem crônicas. sou eu. apesar de que meus amigos, há muito tempo, falaram que eu era as mãos do grupo - mãos de escritora. eu acho engraçado, é tão claro que eu escrevo, que escrever é algo que facilita a minha vida, que eu escrevo quando dói e quando adormece, que eu escrevo pra chorar e pra gritar e pra rir e pra amar. e eu escrevo para amar. sempre.

eu sou uma escritora. e estou apaixonada por você. e eu espero que minhas palavras cheguem até aí - até seu coração, e até suas sinapses, e até seus rins e pulmões e sangue e pâncreas. que as palavras cheguem aos pés e às mãos e aos olhos e a boca. que as palavras preencham seus ouvidos e seu nariz. que as minhas palavras alcancem a sua galáxia. o seu universo. você é um universo, e seu coração é uma galáxia e você é uma pessoa tão infinita, e eu também. olha quanta coisa cabe aqui dentro. e aí dentro.

se um escritor se apaixona por você, você não pode morrer. porque escritores são feitos de tinta. nossa tinta invisível escreve sobre a nossa pele. todas as nossas palavras e os nossos pensamentos. impressos nas nossas mãos e nos nossos olhos. você vai viver pra sempre, até mesmo depois que morrer. alguns mais pra sempre que outros - você vive até que morra todas as pessoas que te conheceram morram; no geral, mas algumas vivem mais que isso, porque escritores e desenhistas e pintores e arquitetos e músicos se apaixonaram por elas. mas elas podem nem saber. e nem ninguém mais. quando um escritor se apaixona por você, ele não quer escrever apenas sobre o seu lado bom. escritores têm uma queda por aquilo que está nas sombras. escritores vão te amar com inclusão - os seus defeitos são negativos e irritam os escritores e eles têm vontade de brigar com e mudar você. mas os seus defeitos viram defeitos dos personagens. o seu mau humor se torna uma ambientação sombria. a sua seriedade se torna uma história triste. um escritor não quer apenas o seu melhor. um escritor quer você. debaixo das máscaras. nas entrelinhas.

eu vou escrever sobre você. quando eu estiver machucada e antes e depois disso. eu vou escrever sobre você até mesmo quando não estiver escrevendo sobre você, até mesmo quando estiver escrevendo uma redação sobre porque eu acho que aumentar a pena baseando-se na reincidência do réu é contra um princípio do direito penal. eu vou escrever sobre você quando estiver escrevendo sobre outras pessoas que eu amo, porque minhas percepções sobre amor estarão afetadas por você.

e o mais importante de tudo, eu vou escrever sobre você porque eu quero. eu queria dizer que não preciso, mas eu preciso escrever. sempre e continuamente. mas eu escreverei enquanto der, enquanto você ficar e quando você for embora. porque eu quero. porque é bom. porque eu sou toda sobre tinta e cicatrizes e tatuagens. porque tatuagens são as cicatrizes que você escolheu ter - e elas são feitas de tinta, a mesma tinta que te torna imortal.

só porque um escritor se apaixonou por alguém. alguém se torna imortal acidentalmente, alguém se torna imortal porque um escritor quis imortalizar aquela risada, ou o uso da palavra oximoro, ou os olhos de cigana oblíqua e dissimulada, ou um animal que era parte da sua alma, ou um garoto que viu num trem e achou que tinha cara de harry. você percebe a grandiosidade disso? dessa pequena infinitude? desse universo criado apenas por palavras e nada mais. um universo se expandindo sempre. um universo infinito.

só porque eu me apaixonei por você.


domingo, 27 de abril de 2014

your smile is beautiful and it makes me happy

eu gosto de começar sempre reafirmando o que pra mim é óbvio: eu gosto de você. dito isso, posso me estender por essa página sobre a beleza que encontra a luta e se reflete na sua força. posso falar sobre como sua risada é gostosa e sobre como você tem voz de jornalista - uma voz séria e límpida, que se faz entender, uma voz que combina com sua educação e essa mistura de polidez e doçura tão característica a você. posso falar sobre você ser admirável - acho que admiro o fato de lutarmos juntas para manter a cabeça erguida. Já acho toda mulher admirável apenas por suportar, mas manter a cabeça ensanguentada e não curvada, como diria um poeta, não é para todos. eu vou amparar você, caso e quando você precise. você falou sobre se sentir em casa, e meu abraço é uma fortaleza - por mais que isso soe egocêntrico. eu só espero que você se sinta acolhida e amada. que você se sinta apreciada, admirada, empoderada. quero ouvir sua risada tímida e escandalosa, e saber que eu consegui fazer você rir assim, pra compensar todos os sorrisos que você me arranca. quero mesmo, muito mesmo, que meu abraço seja carinhoso e confortante pra você. acho que no fim, eu só quero conseguir fazer você sentir um pouco do que você me faz sentir.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!

talvez existam outros mundos [meus sapatos afundam na terra molhada enquanto eu penso isso] talvez existam outros mundos, mundos em que eu não esteja chorando, mundos em que eu consigo dormir, mundos em que meu irmão não tenha precisado me segurar para eu não cair no chão de tanta fraqueza nas pernas. talvez existam outros mundos [um vento frio me arrepia a nunca enquanto eu penso isso], mundos com dois sóis e três luas, mundos em que o mar é vermelho e o céu é verde, mundos em que as pessoas tenham animais como pedaços de suas almas. talvez existam outros mundos [meu coração está tão acelerado que escuto a pulsação nos meus ouvidos], mundos em que eu também possa escrever, mundos em que nós não precisemos nos esconder, mundos em que não haja humilhação a toda volta, mundos em que o sofrimento possa ser compensado por pessoas empáticas. talvez existam outros mundos [minhas pernas enfraquecem de novo, e eu quebro, quebro, quebro, meu interior está estilhaçado e me corto no meu próprio vidro, estou sangrando, minha ferida nunca vai cicatrizar, o ar me falta, sinto as mãos de meu irmão me segurarem, meus olhos não enxergam e está tudo embaçado e lento, tudo está indo, indo, eu gostaria de poder ir também, sumir no mar, ir para em qualquer outro lugar distante, tão distante quanto minhas sensações parecem agora, estou dormente e sinto que nunca mais vou acordar, estou caindo, caindo, e da minha boca só sai o seu nome, por mais que eu queira me controlar, é só nisso que eu consigo me concentrar], mundos em que você está vivo e bem, meu amor.

sábado, 5 de abril de 2014

até o mundo acabar

eu sou meio cética com relacionamentos - ou melhor, tento ser. acho que corre o risco de sofrer mais, sem a devida dose de ceticismo. ao mesmo tempo, isso só ocorre comigo. vejo vocês e me parece agora impossível desassociá-las. engraçado que eu não conheci vocês como namoradas. conheci uma e depois a outra. acompanhei a paixão de uma por um cara e a paixão de outra por uma moça. conheci vocês em universos separados, conheci cada uma em um círculo sem interseção. mas eis que o mundo gira e o tempo passa e eu não tenho mapeamento de nenhum universo, nem mesmo o meu, e os círculos se aproximaram e no final das contas, vocês duas compartilhavam uma galáxia. eu sei que agora deve doer um pouco - a volúpia da saudade, i need you so much closer, ah, a distância - e às vezes doer muito, mas é assim que acontece. o mundo gira e o tempo passa, e daqui a pouco além da galáxia, vocês estarão compartilhando um planeta. na minha cabeça, vocês estão sempre próximas - tenho uma imagem muito fixa de um abraço partilhado silenciosamente na cama, o silêncio da compreensão. espero que esses dois anos durem até que o mundo acabe, de uma maneira ou de outra. fico feliz com esses círculos que se uniram. fiquem bem. que cada dia cinco seja um lembrete do universo compartilhado entre vocês.

segunda-feira, 24 de março de 2014

you are my sweetest downfall

na primeira vez, sinto meus pés na areia macia. você está sentada de frente para o mar, o vento bagunça seu cabelo preto. caminho com um sorriso até o seu lado e me sento. você não me olha, solta um profundo suspiro e seus ombros caem. ainda sorrindo, passo meus braços ao redor de sua cintura e deito a cabeça nas suas costas.

na segunda vez, eu estou no metrô. você está folheando um livro e eu te olho, ávida. por meio segundo, você levantar o olhar e nós duas nos encaramos, e eu quase sinto você saber quem eu sou. mas o instante passa e você torna a ler o livro, deixando meu coração em frangalhos.

na terceira vez, seus olhos estão cheios de lágrimas e seu sorriso ilumina todo o seu rosto. coloco o anel no seu dedo, eu sempre fui a mais sentimental, então é deliciosamente surpreendente você estar feliz a ponto de chorar.

na quarta vez, você me acena de longe, andando de mãos dadas com um cara. sinto tudo dentro de mim quebrar, cada pequena rachadura se partindo enfim, todas as minhas cicatrizes subitamente abertas. minha cabeça roda e eu me encosto a uma árvore, desejando que essa seja a última vez. mas não é.

na quinta vez, eunãoconsigoteencontrar. falo isso rápido e sem respirar, onde está você, onde está você. que brincadeira estúpida é essa. eu sei que você está em algum lugar, mas eu não consigo te encontrar. por favor, por favor, me encontre.

na sexta vez, você está debaixo de mim, e meu sorriso é voraz, e meus dedos entram em você e você se contorce, os olhos semicerrados, a boca aberta. eu me abaixo e te beijo, de novo e de novo e de novo, porque eu acho que estamos acabando, meu amor.

na sétima vez, que é a última vez, meus pés estão mal equilibrados na sacada do prédio. você está lá embaixo. eu sorrio, porque é o grandioso fim e você vai assistir e é quase engraçado e quase doloroso que não vai doer nada em você - mas não tem problema, estou sentindo por nós duas. eu pulo e sinto o vento e você grita e finalmente isso tudo termina.

terça-feira, 18 de março de 2014

everything that downs me makes me wanna fly

eu queria poder escrever sobre o seu cheiro - mas eu não sou uma pessoa que cheira outras, no geral. nem me lembro do cheiro de ninguém. só me parece apropriado, dizer que queria escrever sobre o seu cheiro. o que isso diz sobre mim? eu não sou muito de falar o que é apropriado, e você já comprovou isso diversas vezes. eu queria poder escrever sobre a sua pele. essa afirmação sim, pura e completa verdade. eu gosto de peles. eu reparo no toque das pessoas. queria poder escrever sobre sua pele, sobre sentir sua pele. don't wanna come with me, don't wanna feel my skin on your skin? it's only natural, eu penso imediatamente, abrindo um sorriso. queria poder escrever sobre as suas mãos com pequenas cicatrizes de acidentes domésticos, mas não como algo visual, e sim táctil. queria poder escrever sobre como é beijar você, sobre como é engraçado ter medo de arrancar o piercing de alguém com um beijo. queria poder escrever sobre a textura do seu cabelo, ou sobre pequenas manias que só presencialmente eu conheceria. queria escrever sobre apertar seu nariz, sobre abraçar você, sobre segurar a sua mão, sobre deitar no seu colo, sobre acarinhar seu cabelo, queria escrever sobre aspectos sensoriais de você. mas não posso (ainda?). posso escrever sobre como você acha que eu te vejo colorido e sobre como eu acho que talvez eu veja quase todo mundo que eu amo muito mais colorido que essas pessoas veem a si mesmas. nossa, que construção de frase difícil. ah, como sempre, eu me perdendo no meio dos meus textos. hmm? colorido! você. acho você colorido. acho você lindo. acho que você se vê com injustiça, ao mesmo tempo que acho você ponderado o suficiente pra admitir seus pontos positivos. acho bonita a forma que você se relaciona com as pessoas e com o mundo. gosto da raiva da convicção. gosto da raiva que alimenta. inclusive, isso não é algo exclusivo seu. mas como o texto é sobre você, falo sobre você. eu, me explicando, como sempre. egoisticamente, gosto de como fico bem conversando com você. falar com você me deixa feliz. pensar em algo que você me disse às vezes me faz rir, no meio da rua. algumas outras coisas me fazem abrir sorrisos que eu tento encobrir. lembra a conversa sobre ser uma pessoa sonhadora? meus sonhos idiotas sempre me fazem sorrir e abaixar a cabeça envergonhada, porque eu sempre imagino nós dois adoravelmente introvertidos e tímidos um com o outro, a princípio. ahn, talvez eu não devesse escrever isso aqui. sempre me vigiando, sempre me controlando. o engraçado é que eu falo tanto, mas eu já filtro tanta coisa! imagina se não filtrasse, coitado de você, coitado de todo mundo. como todo texto que eu escrevo aqui, eu simplesmente não sei como chegar ao fim. um texto sobre você me parece uma linha de tricô que eu fico enrolando na minha mão e nunca acaba. poderia escrever sobre seus olhos pretos de corvo, ou sobre suas sobrancelhas bonitas, ou sobre como eu gosto da sua risada - de verdade. cada vez que eu a escuto, meu coração se aquece de um jeito idiota. queria continuar compartilhando músicas e pensamentos com você, por tempo indeterminado. mas eu já falei, o medo das coisas se esvaírem. por favor, fique por perto o suficiente pelo menos pra dar tempo de eu cheirar a sua pele pra escrever outro texto, sim?