sexta-feira, 7 de outubro de 2016

me diz o que é sufoco

[prece feita no corredor da universidade]
por favor, deixa ser eu, por favor, só dessa vez, eu juro que eu não peço mais nada. deixa ser eu, deixa ser eu, por favor, por favor, eu tô aqui, deixa ser eu.

[prece feita com gosto de vinho na boca e grama molhada contra as costas]
não deixa acabar assim. eu não sei, eu não sei mais o que pedir, eu só queria ser mais, mais, mais. por que eu sou tão terrivelmente mesquinha e egoísta? eu poderia só estar satisfeita, e eu rio, porque eu nunca vou estar satisfeita, eu sou mesmo igual a ele, egoísta e egocêntrica, cheia de palavras bonitas pra florear a decadência da verdade. se eu abrir os olhos ele ainda vai estar aqui e eu vou sorrir, eu vou sorrir tanto, e eu vou encarar que a felicidade é tão enorme e tão breve. chama que já vai se apagar, porque nunca vou ser eu e ele vai se afastar e eu vou ter a mera lembrança enevoada que me servirá como lâmina: todo dia eu vou me ferir, com a falsa memória de como seria se fosse eu, ao menos uma vez.

[prece feita entre cinza e fumaça de cigarro]
se não vou ser eu
deixa acabar
se não vou ser eu, por favor, por favor, tira isso de dentro de mim. se não vou ser eu, por que eu ainda insisto no se?, não serei eu, não serei eu, então deixa isso morrer. por favor, por favor, deixa isso morrer.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

i could go anywhere with you

"tú me quiere?"

silêncio.
alguém escreveu uma vez que estar em um telefone era como estar em uma dimensão a parte. estática e silêncio. é engraçado pensar — o seu corpo deitado na cama, talvez, olhos encarando o teto, escuridão ao redor. respiração. a respiração dele também e você não sabe como ele está, mas imagina: deitado, também, ou sentado encarando a cachorrinha descansar encostada à parede. e a dimensão fora disso tudo, a ligação que cruza mais fronteiras do que imaginado. além de paredes, e rios, e cidades e possivelmente pedágios, fronteiras linguísticas também e, especial e particularmente, as suas fronteiras que eram barreiras todas reduzidas a pó no meio da noite, que poderia ter sido tão quieta como qualquer outra, mas não foi, porque o eterno movimento do universo não quis assim.
estática. respiração.

"uhum."
porque é melhor entregar a verdade assim, um murmúrio que soa mais como o som do mar calmo à noite ou talvez do vento ou talvez das estrelas — e ele sente o coração se retorcer e encolher e então expandir, silêncio e silêncio, estática e batidas de coração. o instante suspenso da realidade naquela dimensão que só vocês dois têm acesso. eu apostaria todas as minhas verdades que o coração dele bateu simultaneamente rápido e calmo: rápido porque sim, porque uhum é um murmúrio que afaga o rosto como um sopro segundos antes de um beijo, calmo porque era verdade e ele sabia mesmo antes que fosse dito, mesmo antes de ele saber de fato, é o elemento mágico de um segredo que diz respeito a duas pessoas, não? elas sabem antes de ser sabido, e ele sabia, o tipo de coisa que se sente antes nos ossos, antes que se possa pensar, antes que.

silêncio e estática e respiração.
e o tempo se estica e estica e estica e parece preencher toda a distância que já no mundo. tempo e espaço, os maiores inimigos dos que se amam, finalmente dobrados a vocês: ele fecha os olhos e você também e ele tem medo que você durma de novo porque vocês estão tão cansados e então ele nota que não se importaria em ouvir você dormir — e que na realidade gostaria de poder ver esse instante, os olhos fixos em você, enquanto os seus estivessem se fechando. mas ele só pode ouvir e isso é suficiente, mas também não é.

e você poderia ter perguntado o caminho inverso — e talvez ouvir algo além de um uhum, ou talvez ouvir o mesmo murmúrio que soaria como carinho, ou talvez ouvir o silêncio da verdade, mas você não perguntou, pontas dos dedos formigando e olhos brilhando no escuro. não, você não perguntou, porque a verdade é tão bela quanto é terrível, e você a conhece antes mesmo de ele anunciá-la e você sabe que a verdade dita em voz alta muda ainda mais os conceitos de tempo e espaço.

mas vocês estão em outra dimensão, e não haveria problema em perguntar, porque todas as estrelas se dobrariam apenas para que você pudesse imaginar que ele também estava lá.

(e ele está — em silêncio e em estática.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

and i know that it's so cliche to talk about you this way

meu coração muito acelerado enquanto eu vou andando até o desembarque do aeroporto de salvador, as portas automáticas se abrem ao mesmo tempo que os nossos sorrisos, meus passos apressados percorrem os poucos metros de distância entre nós, depois de tanto tanto tanto tempo. a gente se abraça. você chora, eu peço pra que não chore, a gente vai comer; na verdade, a gente vai sentar, porque toda a fome que eu tava é substituída pela constatação de que você é linda linda linda; o cabelo imponente, os olhos da capitu, o nariz engraçadinho, a boca bonita, o colo lindo, e os pelos do suvaco, meu deus, meu sorriso se alargava sempre com essa pequena grande transgressão social. eu te dou seu presente, você me diz "pepinos"; então está mesmo acontecendo, eu estou te olhando admirada e abobalhada. e então--

(isso estava nos meus rascunhos há tempo demais
e a realidade me faz sorrir e chorar muito.)

você longe, muito longe. o vestido é azul, acima dos seus joelhos, as alças são finas e eu amo seus ombros. longe. você dá um passo para o lado e para o outro e rodopia, e sorri e - minhas frases são todas incompletas. minhas mãos estão suadas e eu queria poder te tirar pra dançar, você e seu vestido azul e rodado, mas não acho que vão aceitar ver a gente dançando. eu imagino nossos vestidos rodopiando juntos. o meu tem mangas e é preto e eu sou discreta, cabelo preto preso num coque, vestido preto, sapatos pretos. você sorri o sorriso mais lindo e todos os homens te acham linda e provavelmente as mulheres também. talvez a maioria das mulheres daqui te achem linda de um jeito diferente do meu - o meu jeito dói no fundo do meu peito e afunda meu coração dentro da minha barriga. você é a pessoa mais linda do mundo, eu repito dentro da minha cabeça e dói, dói, dói.

if i ever feel better

por uns instantes, eu senti o pânico de não saber o que dizer.

é como tropeçar: aquele pequeno segundo de susto em que você não tem a menor certeza se vai ser capaz de permanecer em pé ou se se seus joelhos e palmas das mãos serão marcados pelo toque áspero do asfalto. eu olhei nos seus olhos (só dentro da minha cabeça, em que é surpreendente o quão bem registrados eles estão, enormes, sanpaku, emoldurados por pequenas espirais ou por espiral nenhuma. eu me perco dentro desses parêntese porque me lembro tão bem dele que devo agradecer a alguém essa memória de entalhe em pedra: seus olhos e as mudanças que neles se operaram pelos seis anos que eu te vi) e não soube o que dizer e isso me pareceu, essencialmente, deslocado. formei as palavras no ar: eu não sei o que dizer. antes seria uma admissão tranquila. não sei o que dizer, porque não preciso dizer nada. você me conhece como conhece as ruas da sua cidade. agora eu não sei o que dizer e isso me apavora. eu me agarro em possíveis lembranças, como se fossem correntes: eu sou eu, ainda, mas eu também não sou mais o que eu era; você também não é como você era e eu te disse que essa era a você mais você, você genuinamente você, e eu rio comigo mesma com lágrimas nos olhos porque bentinho se afastou de capitu e quando voltou ela era ela como nunca tinha sido. você é você é você é você. acho que tem tanta você pra eu descobrir de novo agora e tentar entender e mapear, mas também tem tanta ou tão pouca eu que eu não consigo--

eu não sei o que dizer.
eu queria conseguir. eu ainda consigo? eu ainda tenho chance de você segurar a minha mão e me mostrar o caminho das pedras que eram tão conhecidas por nós duas? eu queria olhar de novo para o mar com você (aqui, um mar de grama seca e folhas mortas). eu queria, eu queria, eu queria.

que eu não estivesse com essas correntes que me prendem ao passado e que me fazem pensar que eu estou me despedindo, sempre, de novo e de novo. eu não vou me esquecer de você, nunca, porque for all time, mas eu não quero não me esquecer de você por estar sempre tocando a mesma canção na minha cabeça, eu quero.

eu quero não esquecer de você porque a gente vai estar cantando de mãos dadas, em alto e bom som.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis

você respira.

é tão suave, meu amor. você respira e está vivo e isso dura alguns poucos milésimos e se repete por vezes incontáveis, quase infinitas, se nós não estivéssemos tão acostumados em contemplar (e romantizar e aguardar e acolher) a finitude de tudo o que nos cerca. você respira e eu sinto o ar que escapa da sua boca no meu rosto e me pergunto como eu pude chegar perto, tão perto assim, a ponto de sentir em mim tudo o que te mantém vivo: a sua respiração que acarinha a pele da minha bochecha, o seu peito pressionado com tanta força contra o meu que eu finalmente posso acompanhar as batidas do seu coração. eu quero sorrir, e eu sorrio, meus olhos abertos que enxergam os seus fechados na escuridão. eu posso sentir o calor da sua pele, o seu coração anda fazendo um bom trabalho em te manter vivo; eu rio comigo mesma pensando que deveria parabenizar todas as suas células e órgãos por te manterem de pé; eu penso que deveria agradecer a qualquer entidade que seja que brinque com nosso universo. não, não é uma questão de controle, não acho que o universo nos controla e cria um destino, mas não é bonito pensar assim? que meus joelhos ralados encontrariam um dia afago e sossego nos seus dedos cheios de pequenas cicatrizes. é tudo feito pela memória, é claro, tudo tinta invisível. eu me machuco nos joelhos por correr demais, cair demais, tropeçar sempre foi a minha sina. você se machuca nas suas mãos, porque quer se controlar demais, está cansado demais, não aguenta segurar mais. eu me pergunto se é uma ilusão: você realmente está tentando amenizar meus machucados ou eu apenas quero ver dessa forma? porque eu estou tentando amenizar os seus, e colocar band-aids em feridas que você me murmura que já sararam. eu me perco em todas as palavras que eu tenho a dizer porque nenhuma é suficiente (nunca são, mas eu sempre tentei fazer com que fossem): eu quero falar que você respira e isso é um milagre. eu quero falar que nos encontramos e esse é outro, e meu, meu milagre particular, guardado dentro do meu coração. não existe destino, eu repito dentro da minha mente, não existe destino e é apenas a aleatoriedade do universo que me faz te ter entre meus braços, e eu sorrio com meus dentes arranhando a sua pele porque de todas as aleatoriedades com as quais eu me deparei, essa certamente entrará naquela estante em que eu guardo as mais especiais. é tão suave, não é? é tão frágil e logo será só memória, está acontecendo e deixou de acontecer no instante seguinte. eu tento guardar para mim todos os detalhes, eu sou ávida e egoísta, eu preciso memorizar cada parte a cada instante para poder voltar para eles depois, vezes demais, mais vezes do que o que eu consideraria saudável. você deveria saber: você mesmo me disse que eu não amo nada tranquilamente; eu não sei como seria diferente com você. então eu me apego a algo que eu sei que em breve irá acabar, e é pura teimosia minha comigo mesma. meu coração, pobre coitado, me repete que eu deveria saber me cuidar, e que eu deveria ter calma, e que tudo isso uma hora irá passar. minha cabeça, tirana e emocional, me incentiva a aprender: o jeito como sua barriga retrai quando eu toco em um lugar, ou como você respira perto do meu ouvido, ou como seus lábios são tão suaves beijando toda a linha do meu maxilar; eu marco a ferro em brasa a lembrança da sua testa contra a minha, o seu nariz esfregando o meu, sua boca aberta para receber a minha como seu coração nunca estará para me receber. é tão suave e tão frágil, existe em um instante e depois foi embora como areia ao vento, e eu não posso segurar todos os grãos em minhas mãos. logo eles vão embora também. logo tudo o que eu me esforcei para aprender irá esvanecer também.

mas.
você respira.
e por enquanto
isso é suficiente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

eu me pergunto se você se lembra o quão consciente eu sou
(se você se lembra que quando eu olho no espelho
eu só vejo os meus erros
e os machucados que eu fiz a outras pessoas
porque os meus machucados
eu sou capaz de perdoar)

e eu me pergunto se você sabe que eu sei que eu errei
e que eu não posso me desculpar (porque seria em vão, porque eu não mereço ser desculpada)

eu me pergunto se você sabe que eu sei que eu errei.
eu me pergunto isso vezes demais.
eu me pergunto também se nós concordamos em qual foi o meu erro:
foi o que aconteceu?
foi contar a você que aconteceu?
ou um é realmente inseparável do outro? porque eu nunca fui boa em esconder nada de você

eu me pergunto se houveram erros além desses
(você se sentiu abandonada?
você se sentiu deixada sozinha?
você se sentiu deixada de lado?
e eu percebo que eu fiz
você se sentir todas essas coisas
e isso também entra na lista dos meus erros)

eu penso em separações
aos poucos, e então de uma vez
era o nosso grande medo, não era?
você ainda acredita
ou seria capaz de acreditar
que eu tinha esse medo também?

eu me pergunto se você me odeia,
ou não gosta mais de mim,
ou sente raiva de mim,
ou apenas se sente mal
em pensar que eu continuo existindo
e que eu manchei você
e que eu manchei o que eu era pra você
e que eu manchei treze meses de afeto
em um mês de terror

eu me pergunto se até a minha culpa agora te soa falsa
mas você ainda me conhece
(será que você pensa assim?
ou será que eu destruí isso também?)
pra saber que a culpa é um corvo que canta no meu ombro
o dia inteiro

eu me pergunto se você limpou os cacos
que eu devo ter deixado em você quando tudo se quebrou
e se um dia você vai olhar para as cicatrizes sem odiá-las tanto
(eu me pergunto se o seu nunca mais foi
realmente
nunca mais)

eu me pergunto se eu tenho o direito de me sentir mal
mas não é um direito
e está além do meu controle
e eu me sinto mal por mim mesma
e pelos erros que eu cometi
e não por você
nunca por você

eu me pergunto se eu ainda posso pensar em você
ou se isso também seria machucar você

(eu não me pergunto se você irá me desculpar
porque você não deve,
a não ser que faça bem a você
desculpar alguém que tocou fogo em ruínas

eram ruínas mas eram nossas
eram bonitas, ainda

mas eu me pergunto se eu irei me desculpar
algum dia.
eu me pergunto se eu mereço meu perdão
e o corvo que é a culpa sozinho me deixa concluir
que nunca mais)