acho que eu não sei escrever sobre você (mas até aí eu não sei escrever sobre ninguém, minhas palavras nunca fazem jus ao que eu vejo).
eu pensaria: os dentinhos.
tá aí, eu começaria falando sobre os dentinhos da frente ligeiramente separados, a característica que eu considero mais adorável em qualquer ser humano. meus textos são todos enormes pedidos de desculpas, e aqui está o primeiro deles — tanta coisa pra dizer, e eu vou dizer que seus dentinhos me fazem querer te dar um abraço.
eu também posso dizer que é engraçado ver você sendo você
(e eu me lembro de há muito tempo ter lido você escrever sobre hábitos de outra pessoa, e que a palavra certa era fofo e não engraçado, e acho que faz mais sentido pra mim agora essa constatação)
como em: é engraçado ver que você não é só um punhado de palavras bonitas organizadas em textos dolorosamente próximos e também não é só o desespero latente de cento e quarenta caracteres. você é você, tridimensional, cheio de tatuagens, olhares desviados e aquele barulho da bolinha de menta (ou hortelã?) no filtro do cigarro estourando.
ou como em
é engraçado ver o cara que me passou um sermão sobre eu me preocupar demais com os outros e isso só servir pra alimentar meu bem estar ao invés do alheio e perceber que desculpa, eu ainda estou preocupada com você, e os outros, e queria poder ajudar e ficar brincando com sua mão enquanto só ouço você falar.
eu gosto de ouvir você falar, e é sempre surpreendente ouvir a voz das pessoas que você não encontrou a princípio presencialmente. uma sensação de estar tudo infinito e completo: aí está você, na penumbra do sofá, cantarolando um rap que eu nunca tinha escutado antes, e é tão real que eu não posso falar nada para não atrapalhar a realidade do momento.
eu acho que você é bem melhor com as palavras do que eu — ou que, ao menos, você tem um objetivo com elas. eu não tenho, eu quero falar sobre esperança e sobre você me fazer ver coisas de novos pontos de vista, e sobre eu reler alguns textos seus em busca de conforto ou impulso, e sobre você ser tão real quanto as suas palavras, e tão verdadeiro quanto, e sobre eu queria poder te ajudar e me desculpa por isso, e sobre querer estar perto e cuidar até onde seja permitido cuidar, e sobre você me lembrar um gatinho — arisco e carinhoso, ao mesmo tempo — e sobre
eu não sei.
seus dentinhos, talvez.
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