quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

king of diamonds

acho que eu não sei escrever sobre você (mas até aí eu não sei escrever sobre ninguém, minhas palavras nunca fazem jus ao que eu vejo).
eu pensaria: os dentinhos.
tá aí, eu começaria falando sobre os dentinhos da frente ligeiramente separados, a característica que eu considero mais adorável em qualquer ser humano. meus textos são todos enormes pedidos de desculpas, e aqui está o primeiro deles — tanta coisa pra dizer, e eu vou dizer que seus dentinhos me fazem querer te dar um abraço.

eu também posso dizer que é engraçado ver você sendo você
(e eu me lembro de há muito tempo ter lido você escrever sobre hábitos de outra pessoa, e que a palavra certa era fofo e não engraçado, e acho que faz mais sentido pra mim agora essa constatação)
como em: é engraçado ver que você não é só um punhado de palavras bonitas organizadas em textos dolorosamente próximos e também não é só o desespero latente de cento e quarenta caracteres. você é você, tridimensional, cheio de tatuagens, olhares desviados e aquele barulho da bolinha de menta (ou hortelã?) no filtro do cigarro estourando.

ou como em
é engraçado ver o cara que me passou um sermão sobre eu me preocupar demais com os outros e isso só servir pra alimentar meu bem estar ao invés do alheio e perceber que desculpa, eu ainda estou preocupada com você, e os outros, e queria poder ajudar e ficar brincando com sua mão enquanto só ouço você falar.

eu gosto de ouvir você falar, e é sempre surpreendente ouvir a voz das pessoas que você não encontrou a princípio presencialmente. uma sensação de estar tudo infinito e completo: aí está você, na penumbra do sofá, cantarolando um rap que eu nunca tinha escutado antes, e é tão real que eu não posso falar nada para não atrapalhar a realidade do momento.

eu acho que você é bem melhor com as palavras do que eu — ou que, ao menos, você tem um objetivo com elas. eu não tenho, eu quero falar sobre esperança e sobre você me fazer ver coisas de novos pontos de vista, e sobre eu reler alguns textos seus em busca de conforto ou impulso, e sobre você ser tão real quanto as suas palavras, e tão verdadeiro quanto, e sobre eu queria poder te ajudar e me desculpa por isso, e sobre querer estar perto e cuidar até onde seja permitido cuidar, e sobre você me lembrar um gatinho — arisco e carinhoso, ao mesmo tempo — e sobre

eu não sei.
seus dentinhos, talvez.

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