segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

impressão

tem uma menina sentada na sombra de uma árvore comigo. o sol tá quente e a gente tá com frio mesmo assim, por causa da água da piscina. eu tô falando que tá tudo tão bom que eu tô triste. não que eu use essas palavras, mas é essa a conclusão: tá tudo tão bom, eu tô tão feliz, o sol, as casas de condomínio, a perspectiva de ter amigos por todos os lados; o dia anterior e todos os dias anteriores a esse do último mês e alguns dias. eu não estive sozinha, está tudo tão bem, e vai tudo terminar tão rápido.

"é nostalgia," eu digo, ou acho que digo, a palavra morrendo antes ou depois dos meus lábios, enquanto ela me conta que adora casas com janelas e portas de vidro. eu percebo que a amo, em todas as circunstâncias possíveis, eu a amo e não tem tempo que vá mudar isso.

(distância também é só tempo, transformado em paisagem e meios de transporte)

tem um menino e ele está deitado no chão de concreto comigo. arranha nossa pele e estrelas que só cidades sem iluminação elétrica abundante arranham nossos olhos. ou os meus, e os dele têm lágrimas, e em breve os meus teriam também. eu não consigo lembrar (pensar) bem do que dizer, mas eu tô lá e ele está em silêncio e eu quero que ele saiba que não está sozinho, não precisa estar sozinho, não deve estar sozinho e eu o abraço, mas.

"não é suficiente, tentar te abraçar," eu digo, ou acho que digo, e ele concorda e me fala algo e eu não sei mais o que dizer, eu quero dizer que não é suficiente tentar abraçar e não conseguir, eu quero dizer que eu posso abraçar, que tanta gente pode, eu quero dizer tanto, mas eu não sei se ele quer ouvir. se ele vai ouvir.

(ele vai ouvir, ele vai ouvir, um dia ele vai ouvir, eu repito pra mim mesma, sabendo que ouvir sem absorver não é suficiente)

tem uma menina e ela está chorando porque descobriu que quando pessoas morrem elas expelem toda sorte de coisas que ela não gostaria nunca de ter sabido e estão todos chocados e eu sei que é porque ela tem orgulho demais, ela tem medo demais de ser motivo de riso ou de nojo ou de desprezo, todo orgulho é uma forma de medo, não?, e eu peço pra que parem de falar, se ela se preocupa tanto com a vida, a morte não deveria ser mais um item na lista de paranoias em geral.

tem um menino e ele está na cozinha enquanto eu falo toda besteira que me vem a mente na tentativa de fazê-lo rir. ele ri, bastante, ele se dobra e me pede pra parar e eu continuo, continuo, continuo, a culpa comendo cada borda do meu interior porque ele esteve chorando por minha causa e eu preciso ouvir a risada dele, uma confirmação de alguns segundos que tem algo bom acontecendo no cérebro do menino, a química que te faz reagir a algo com risadas leves e não nervosas, com sorriso e não com lágrimas. eu o fiz chorar, e eu preciso fazê-lo rir também.

tem um menino e eu me sento entre as pernas dele enquanto passo geleia dentro de pães, enquanto escuto outros meninos, enquanto escuto música, enquanto escuto barulho de vento e mar e maresia (é mais cheiro do que som, mais sensação do que cheiro, mais ideia do que realidade, mas está por todo lado), e ele beija a minha mão e ri comigo e eu me sinto acolhida e eu quero dizer que o amo, vezes demais, por tempo demais, mas eu só estendo outro pão pra ele e espero que ele saiba.

tem uma menina e ela está chapada e sorridente e vem me perguntar se está tudo bem, se eu preciso de algo, se eu quero conversar, e minha perna treme incontrolavelmente, a ansiedade dando forma aos meus movimentos, mas está tudo bem, eu quero assegurar, eu asseguro, eu asseguro?, ela se preocupa, ela se preocupa demais e tem mil pensamentos passando pela cabeça e os olhos dela brilham no escuro e eu penso em como sempre foi assim, em como ela sempre teve olhos brilhantes.

"eu só vim ficar um pouco na internet," eu digo, ou acho que digo, e é verdade, a luz do celular machuca meus olhos um pouco, mas não tem problema, eu só queria ficar debaixo de árvores e estrela e vento e sentindo formiguinhas andarem pela minha pele. eu espero que ela não se preocupe, eu sei que ela se preocupa, eu torço para a maconha fazer o favor de deixar os pensamentos dela mais leves, porque ela não merece a inteligência que tem sendo usada contra si mesma.

(ela vai embora, e eu penso sobre como é mais fácil se deixar ficar só, quando você sabe que não está só de verdade, ainda que solidão tenha sido sua maldição autoimposta)

tem umas pessoas e elas estão cozinhando para outras e eu estou longe enquanto isso acontece, mas eu penso sobre cuidado e sobre cozinhar para os outros e em como isso é uma forma de cuidar. se dispor a. em como elas se juntaram e estão rindo e conversando na cozinha, com música tocando e corpos suando inevitavelmente, mesmo com a tentativa do ventilador de ajudar. eu penso sobre cuidar de si mesmo e cuidar dos outros e em como deveria ser fácil equilibrar esses dois conceitos: eles cozinharam, e comeram e dividiram a comida, eles fizeram o que tinham que fazer por eles e também fizeram para os outros, então por que não é possível que façamos o mesmo? por que não é possível que cuidemos de nós e dos outros, por que não é possível que tentemos dividir o cuidado? elas estão aqui, e estão cansadas e estão rindo, e eu agradeço, eu agradeço, porque não posso fazer diferente. e nem quero.

tem um menino, e ele beija a minha mão e depois o topo da minha cabeça, e eu me sinto real, real, real.

não dói, e eu agradeço.

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