sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

coração escorpiano

eu tenho que acreditar piamente que o posicionamento dos astros no instante do meu nascimento fez isso comigo. porque a opção de eu simplesmente ser assim, independente de estrelas e planetas e satélites naturais, é terrível demais. me deixem acreditar que sentir falta de tudo que aconteceu e essa nostalgia que se agarra no meu peito feito erva daninha é culpa de um mau posicionamento da galáxia inteira. só sei sentir saudade, me parece. faço o contrário do que as músicas e os filmes aconselham - meus olhos só se voltam para trás, para antes; em algum momento eu espero conseguir pensar em além, para onde ir, o que vai acontecer, doravante, porvir. infelizmente sou toda feita de memórias e cicatrizes e tatuagens invisíveis, ontem, há, houve. queria conseguir controlar a cabeça em marcha ré. todos avançam e eu vou pela contramão mais errada possível. não se pode querer ter uma pessoa que é um museu na vida. não tenho nada a oferecer, senão aquilo que já foi. a história já contada; o dia que passou. o depois se torna antes num piscar de olhos. nunca me senti tão desconectada; sei que estou vivendo o presente e me preparando para um futuro, ainda que forçosamente, mas.

mas.

eu não aguento mais me despedir de todas as coisas, todos os dias, todas as horas. é amarga uma vida de dizer adeus.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

but i keep it for good luck

eu senti vontade de parar de beijá-la, só pra dizer que ela deve ser uma dessas pessoas que as outras sentem sorte de estar beijando. como se houvesse tido uma grande conjunção dos astros pra que eu pudesse beijá-la, porque eu sempre fui a pessoa das escolhas erradas, então não tinha como por minha causa eu estar beijando ela. até mesmo se pensarmos nos eventos e causas e efeitos que levaram ela a querer me beijar - será que eu engoli um gerador de improbabilidades infinitas? mas quem parece ter um coração de ouro é ela, e não eu. eu deveria parar de beijá-la pra dizer um monte de coisas que provavelmente eu não poderei dizer depois. não que eu não acredite em amor nem nada do gênero, eu até acredito, mas acredito mais ainda em fins. como uma pessoa que acredita tanto em fins pode acreditar numa duração muito longa pra algo? eu sei que falar pra ela que beijá-la deve dar mais sorte que arco-íris e trevos e ferraduras e aqueles colares que vendem na feira com figas e pimentas e olhos provavelmente gerará um arrependimento futuro, do nível choro na madrugada ouvindo o transatlanticism pela oitava vez e pensando que não deveria ter dito nada, que dói menos o quanto menos as pessoas sabem que nos afetam. mas e se ninguém mais falar pra ela que é a maior de todas as sortes sentir os braços dela e mãos nas costas e corpo passando calor? de um jeito totalmente não erótico, eu queria poder dizer que ela é quente, muito quente. porque parece que ela te acolhe e eu deveria abrir os olhos e dizer abra seus olhos, porque não quero perder um segundo nem uma sensação desse instante suspenso no universo em que eu só posso sentir alegria. eu tenho que falar porque ela tem que saber, e até o fim dos meus dias eu vou me arrepender de não ter dito que qualquer pessoa que a boca dela tocasse, ou as mãos segurassem, ou os ouvidos ouvissem com atenção; qualquer pessoa com quem ela se importasse e se abrisse e se mostrasse era uma pessoa coberta de sorte pelo resto da vida. eu devia parar de beijá-la, só pra dizer que o amor dela inunda o universo inteiro.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

réquiem

é estranho quando a gente fala e só recebe silêncio e esse silêncio não é proposital. a gente fala na cabeça e fala alto só, e fala olhando pra lâmpada do quarto e pras estrelas mortas pela janela. e silêncio. acho que uma vez te disseram que você tinha olhos traquinas, ou algo assim, uma palavra bem específica sobre seus olhos. eu sorrio quando lembro porque faz com que eu perceba que você é querida. eu imagino você e seus olhinhos de estrelas na sua livraria. sua livraria não vai ter silêncios, que livraria tem silêncio hoje em dia? mas talvez numa tarde de domingo ela seja silenciosa e você passe as mãos por algum livro e pense no silêncio sem retorno. o belchior cantou que aprendeu com a dor a alegria. uma vez eu li que o universo cuida de todos os seus pássaros. será que você tem olhos de pássaro? olhos de assum preto, com silêncio e música e dor. espero que seus silêncios passem a doer menos com o tempo. não sei se certas dores passam, ou só adormecem por um tempo e retornam ou se ficam constantes e diárias, quem sabe desbotando com o tempo. as palavras nos livros vão sumindo nas páginas, mas por vezes não somem da nossa cabeça. eu não sei, moça dos olhos bonitos. queria te oferecer flores ou palavras ou uma xícara de café, mas - no silêncio, eu te abraço.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

em uma realidade alternativa

eu não sei fumar, então estou com medo de parecer ridícula com esse cigarro entre os dedos. ela tá me ensinando a tragar, mas eu não consigo aprender. é difícil puxar a fumaça desse jeito, então acho que ou eu preciso de prática ou eu vou ser fumante só pra estragar os dentes. eu peço pra que ela me conte histórias dela e histórias do namorado dela, só pra manter a boca dela ocupada. eu passo o cigarro pra ela e ela fuma direito.

então o cigarro está comigo de novo, e eu tento parecer um pouco como a beleza do que faz mal. me falaram que eu combinava com cigarros, quando eu coloquei um na mão no ano-novo, só de brincadeira. me sinto com doze anos, sem saber o que fazer direito. mas tenho dezenove e estamos no último andar do prédio - que nem chega a ser um andar de verdade, penso, olhando pro céu entre a grade, sentada naquele chão de pedra áspera.

"você fica muito descolada fumando," ela diz.

eu olho pra ela. se existir mesmo o tal do olhar escorpiano, espero estar conseguindo fazê-lo agora. seguro o cigarro com o indicador e o polegar, não entre o indicador e o médio. me arrasto um pouco, arranhando de leve as pernas e mãos no chão e fico bem perto dela e dos olhos imensos que não encostam na pálpebra. olhos sanpaku, os japoneses anunciaram uma morte trágica pra ela e as posições dos astros definiram que eu não ia ter medo de contato com a morte.

"me beija, então," eu digo bem séria, como se houvesse alguma conexão entre eu estar descolada fumando e ela querer me beijar. não é essa a conexão óbvia, mas ela está ali, em algum lugar, envolvendo as nossas peles que às vezes parecem uma pele só, de tanto que a gente sente pela outra. ela tira o cigarro da minha mão - eu sou principiante, acho que ela não vai me querer queimada - e me beija, então.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

i've got a million things that i need to do, but they're all secondary

de repente me deu um medo.

ou talvez não tão de repente assim. de repente, o medo voltou. um medo absurdo, sem sentido, sufocante, e eu já estou cansada dele, fecho os meus olhos e peço pra ele por favor ir embora o mais rápido possível. de onde que você surgiu?, eu quero perguntar, porque foram anos sem essa existência pra ele nascer e crescer assim tão rápido. por favor, suma o tão rápido quanto surgiu.

(ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora)

(ela já me disse que não vai embora então ela não vai embora)

(essa promessa já foi feita há muito tempo, antes mesmo de existir tempo)

é difícil ser uma otimista medrosa.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sobre bruxas

parece que as labaredas estão queimando ainda, lambendo os pés e as bochechas, e os gritos não param de sair. parece que tem o segredo compartilhado entre irmãs, e a certeza de que vai continuar, independe de a casa ter sido marcada e o inquisidor ter sorrido enquanto torturava uma bruxa capturada. o segredo revelado, a vergonha pública, o choque da vila - mas aquela bruxa, ela estava entre nós? e é triste e engraçado, porque as bruxas faziam feitiços para a colheita e pra sarar feridas e também, por que haveria de se condenar?, pra causar a dor daqueles que já causaram muita dor. 

alguns riem e pensam na humilhação, e as bruxas sentem a humilhação e as lágrimas enquanto a pera destrói úteros e o açoite marca e machuca as costas. 

mas ainda assim
sempre existe outra bruxa

e as labaredas terminam o trabalho, mas tudo bem. porque mesmo que uma termine, ainda haverá outra. 

and i know i'm naive, but if anything that's what's going to save me

eu deitei no chão pra ver o mundo da mesma altura da minha cachorra, e ele me pareceu imenso.

a gente estava nos balanços com dez anos de idade, e éramos três. a gente estava no quarto e tínhamos catorze anos e éramos sete. a gente esteve em muitos lugares, e já fomos duas e dois, e três, e muitas vezes quatro e cinco. agora eu estou aqui e sou uma só. eu perguntei pra ela se não tinham aquele brinquedo em salvador, e ela disse que não, então ela ganhou um. e eu também descobri que pardal só tinha no ceará. eu mostrei pra ela a praça verde do dragão do mar. ela chorou na hora de ir embora, eu não.ele começou a chorar quando a gente tava dançando e eu comecei a rir porque eu não conseguia chorar. ele falou que aquele dia, que era o último dia, tinham sido um bom dia. a gente passou as mãos no rosto um do outro e se beijou, e alguma coisa devia ter terminado ali. o primeiro e último.tinha alguma coisa sobre o ano-novo, e esse ano vai ser diferente. eu não tinha chorado antes de ir embora, mas eu já chorei depois que fui. fico pensando se doía mais antes. já tinha me perguntado, sabe quando dizem que quando você tá apanhando muito, uma hora para de doer? eu fico chorando e chorando e chorando e às vezes eu nem sei porque, outras vezes acho que sei, sim, só não quero olhar. é involuntário a gente ser uma ilha? porque por mim eu seria uma árvore. uma vez ela me disse que baobás eram coisas tristes, mas seria bom dividir um pouco dos seus átomos com um baobá. nasci debaixo de um sol que determinou que eu ia sentir demais e por vezes eu sinto raiva disso e queria só segurar e controlar um pouco, mas parece que o lance é aceitar que como você é agora não é como você vai ser sempre, por mais que você ache que sempre é a mesma pessoa. eu sinto que eu não mudei nada dos quinze anos pra cá, mas existe algo em mim que grita que eu mudei, sim, sem saber se pro bem ou pro mal. e as pessoas ao meu redor, umas ficaram e outras não. será que eu criei uma couraça de espinhos? eu olho pra esses espinhos todos e penso em como eles surgiram aqui, porque em algum lugar não havia espinhos, só feridinhas e cicatrizes, e eu lembro de a gente - cinco - andando até a casa perto do colégio e cantando que não tinha aprendido a se render, que caia o inimigo então.

eu deitei no chão pra ver o mundo, e ele é tão imenso!