quinta-feira, 29 de setembro de 2016

and i know that it's so cliche to talk about you this way

meu coração muito acelerado enquanto eu vou andando até o desembarque do aeroporto de salvador, as portas automáticas se abrem ao mesmo tempo que os nossos sorrisos, meus passos apressados percorrem os poucos metros de distância entre nós, depois de tanto tanto tanto tempo. a gente se abraça. você chora, eu peço pra que não chore, a gente vai comer; na verdade, a gente vai sentar, porque toda a fome que eu tava é substituída pela constatação de que você é linda linda linda; o cabelo imponente, os olhos da capitu, o nariz engraçadinho, a boca bonita, o colo lindo, e os pelos do suvaco, meu deus, meu sorriso se alargava sempre com essa pequena grande transgressão social. eu te dou seu presente, você me diz "pepinos"; então está mesmo acontecendo, eu estou te olhando admirada e abobalhada. e então--

(isso estava nos meus rascunhos há tempo demais
e a realidade me faz sorrir e chorar muito.)

você longe, muito longe. o vestido é azul, acima dos seus joelhos, as alças são finas e eu amo seus ombros. longe. você dá um passo para o lado e para o outro e rodopia, e sorri e - minhas frases são todas incompletas. minhas mãos estão suadas e eu queria poder te tirar pra dançar, você e seu vestido azul e rodado, mas não acho que vão aceitar ver a gente dançando. eu imagino nossos vestidos rodopiando juntos. o meu tem mangas e é preto e eu sou discreta, cabelo preto preso num coque, vestido preto, sapatos pretos. você sorri o sorriso mais lindo e todos os homens te acham linda e provavelmente as mulheres também. talvez a maioria das mulheres daqui te achem linda de um jeito diferente do meu - o meu jeito dói no fundo do meu peito e afunda meu coração dentro da minha barriga. você é a pessoa mais linda do mundo, eu repito dentro da minha cabeça e dói, dói, dói.

if i ever feel better

por uns instantes, eu senti o pânico de não saber o que dizer.

é como tropeçar: aquele pequeno segundo de susto em que você não tem a menor certeza se vai ser capaz de permanecer em pé ou se se seus joelhos e palmas das mãos serão marcados pelo toque áspero do asfalto. eu olhei nos seus olhos (só dentro da minha cabeça, em que é surpreendente o quão bem registrados eles estão, enormes, sanpaku, emoldurados por pequenas espirais ou por espiral nenhuma. eu me perco dentro desses parêntese porque me lembro tão bem dele que devo agradecer a alguém essa memória de entalhe em pedra: seus olhos e as mudanças que neles se operaram pelos seis anos que eu te vi) e não soube o que dizer e isso me pareceu, essencialmente, deslocado. formei as palavras no ar: eu não sei o que dizer. antes seria uma admissão tranquila. não sei o que dizer, porque não preciso dizer nada. você me conhece como conhece as ruas da sua cidade. agora eu não sei o que dizer e isso me apavora. eu me agarro em possíveis lembranças, como se fossem correntes: eu sou eu, ainda, mas eu também não sou mais o que eu era; você também não é como você era e eu te disse que essa era a você mais você, você genuinamente você, e eu rio comigo mesma com lágrimas nos olhos porque bentinho se afastou de capitu e quando voltou ela era ela como nunca tinha sido. você é você é você é você. acho que tem tanta você pra eu descobrir de novo agora e tentar entender e mapear, mas também tem tanta ou tão pouca eu que eu não consigo--

eu não sei o que dizer.
eu queria conseguir. eu ainda consigo? eu ainda tenho chance de você segurar a minha mão e me mostrar o caminho das pedras que eram tão conhecidas por nós duas? eu queria olhar de novo para o mar com você (aqui, um mar de grama seca e folhas mortas). eu queria, eu queria, eu queria.

que eu não estivesse com essas correntes que me prendem ao passado e que me fazem pensar que eu estou me despedindo, sempre, de novo e de novo. eu não vou me esquecer de você, nunca, porque for all time, mas eu não quero não me esquecer de você por estar sempre tocando a mesma canção na minha cabeça, eu quero.

eu quero não esquecer de você porque a gente vai estar cantando de mãos dadas, em alto e bom som.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis

você respira.

é tão suave, meu amor. você respira e está vivo e isso dura alguns poucos milésimos e se repete por vezes incontáveis, quase infinitas, se nós não estivéssemos tão acostumados em contemplar (e romantizar e aguardar e acolher) a finitude de tudo o que nos cerca. você respira e eu sinto o ar que escapa da sua boca no meu rosto e me pergunto como eu pude chegar perto, tão perto assim, a ponto de sentir em mim tudo o que te mantém vivo: a sua respiração que acarinha a pele da minha bochecha, o seu peito pressionado com tanta força contra o meu que eu finalmente posso acompanhar as batidas do seu coração. eu quero sorrir, e eu sorrio, meus olhos abertos que enxergam os seus fechados na escuridão. eu posso sentir o calor da sua pele, o seu coração anda fazendo um bom trabalho em te manter vivo; eu rio comigo mesma pensando que deveria parabenizar todas as suas células e órgãos por te manterem de pé; eu penso que deveria agradecer a qualquer entidade que seja que brinque com nosso universo. não, não é uma questão de controle, não acho que o universo nos controla e cria um destino, mas não é bonito pensar assim? que meus joelhos ralados encontrariam um dia afago e sossego nos seus dedos cheios de pequenas cicatrizes. é tudo feito pela memória, é claro, tudo tinta invisível. eu me machuco nos joelhos por correr demais, cair demais, tropeçar sempre foi a minha sina. você se machuca nas suas mãos, porque quer se controlar demais, está cansado demais, não aguenta segurar mais. eu me pergunto se é uma ilusão: você realmente está tentando amenizar meus machucados ou eu apenas quero ver dessa forma? porque eu estou tentando amenizar os seus, e colocar band-aids em feridas que você me murmura que já sararam. eu me perco em todas as palavras que eu tenho a dizer porque nenhuma é suficiente (nunca são, mas eu sempre tentei fazer com que fossem): eu quero falar que você respira e isso é um milagre. eu quero falar que nos encontramos e esse é outro, e meu, meu milagre particular, guardado dentro do meu coração. não existe destino, eu repito dentro da minha mente, não existe destino e é apenas a aleatoriedade do universo que me faz te ter entre meus braços, e eu sorrio com meus dentes arranhando a sua pele porque de todas as aleatoriedades com as quais eu me deparei, essa certamente entrará naquela estante em que eu guardo as mais especiais. é tão suave, não é? é tão frágil e logo será só memória, está acontecendo e deixou de acontecer no instante seguinte. eu tento guardar para mim todos os detalhes, eu sou ávida e egoísta, eu preciso memorizar cada parte a cada instante para poder voltar para eles depois, vezes demais, mais vezes do que o que eu consideraria saudável. você deveria saber: você mesmo me disse que eu não amo nada tranquilamente; eu não sei como seria diferente com você. então eu me apego a algo que eu sei que em breve irá acabar, e é pura teimosia minha comigo mesma. meu coração, pobre coitado, me repete que eu deveria saber me cuidar, e que eu deveria ter calma, e que tudo isso uma hora irá passar. minha cabeça, tirana e emocional, me incentiva a aprender: o jeito como sua barriga retrai quando eu toco em um lugar, ou como você respira perto do meu ouvido, ou como seus lábios são tão suaves beijando toda a linha do meu maxilar; eu marco a ferro em brasa a lembrança da sua testa contra a minha, o seu nariz esfregando o meu, sua boca aberta para receber a minha como seu coração nunca estará para me receber. é tão suave e tão frágil, existe em um instante e depois foi embora como areia ao vento, e eu não posso segurar todos os grãos em minhas mãos. logo eles vão embora também. logo tudo o que eu me esforcei para aprender irá esvanecer também.

mas.
você respira.
e por enquanto
isso é suficiente.