você respira.
é tão suave, meu amor. você respira e está vivo e isso dura alguns poucos milésimos e se repete por vezes incontáveis, quase infinitas, se nós não estivéssemos tão acostumados em contemplar (e romantizar e aguardar e acolher) a finitude de tudo o que nos cerca. você respira e eu sinto o ar que escapa da sua boca no meu rosto e me pergunto como eu pude chegar perto, tão perto assim, a ponto de sentir em mim tudo o que te mantém vivo: a sua respiração que acarinha a pele da minha bochecha, o seu peito pressionado com tanta força contra o meu que eu finalmente posso acompanhar as batidas do seu coração. eu quero sorrir, e eu sorrio, meus olhos abertos que enxergam os seus fechados na escuridão. eu posso sentir o calor da sua pele, o seu coração anda fazendo um bom trabalho em te manter vivo; eu rio comigo mesma pensando que deveria parabenizar todas as suas células e órgãos por te manterem de pé; eu penso que deveria agradecer a qualquer entidade que seja que brinque com nosso universo. não, não é uma questão de controle, não acho que o universo nos controla e cria um destino, mas não é bonito pensar assim? que meus joelhos ralados encontrariam um dia afago e sossego nos seus dedos cheios de pequenas cicatrizes. é tudo feito pela memória, é claro, tudo tinta invisível. eu me machuco nos joelhos por correr demais, cair demais, tropeçar sempre foi a minha sina. você se machuca nas suas mãos, porque quer se controlar demais, está cansado demais, não aguenta segurar mais. eu me pergunto se é uma ilusão: você realmente está tentando amenizar meus machucados ou eu apenas quero ver dessa forma? porque eu estou tentando amenizar os seus, e colocar band-aids em feridas que você me murmura que já sararam. eu me perco em todas as palavras que eu tenho a dizer porque nenhuma é suficiente (nunca são, mas eu sempre tentei fazer com que fossem): eu quero falar que você respira e isso é um milagre. eu quero falar que nos encontramos e esse é outro, e meu, meu milagre particular, guardado dentro do meu coração. não existe destino, eu repito dentro da minha mente, não existe destino e é apenas a aleatoriedade do universo que me faz te ter entre meus braços, e eu sorrio com meus dentes arranhando a sua pele porque de todas as aleatoriedades com as quais eu me deparei, essa certamente entrará naquela estante em que eu guardo as mais especiais. é tão suave, não é? é tão frágil e logo será só memória, está acontecendo e deixou de acontecer no instante seguinte. eu tento guardar para mim todos os detalhes, eu sou ávida e egoísta, eu preciso memorizar cada parte a cada instante para poder voltar para eles depois, vezes demais, mais vezes do que o que eu consideraria saudável. você deveria saber: você mesmo me disse que eu não amo nada tranquilamente; eu não sei como seria diferente com você. então eu me apego a algo que eu sei que em breve irá acabar, e é pura teimosia minha comigo mesma. meu coração, pobre coitado, me repete que eu deveria saber me cuidar, e que eu deveria ter calma, e que tudo isso uma hora irá passar. minha cabeça, tirana e emocional, me incentiva a aprender: o jeito como sua barriga retrai quando eu toco em um lugar, ou como você respira perto do meu ouvido, ou como seus lábios são tão suaves beijando toda a linha do meu maxilar; eu marco a ferro em brasa a lembrança da sua testa contra a minha, o seu nariz esfregando o meu, sua boca aberta para receber a minha como seu coração nunca estará para me receber. é tão suave e tão frágil, existe em um instante e depois foi embora como areia ao vento, e eu não posso segurar todos os grãos em minhas mãos. logo eles vão embora também. logo tudo o que eu me esforcei para aprender irá esvanecer também.
mas.
você respira.
e por enquanto
isso é suficiente.