sexta-feira, 26 de setembro de 2014

i've got a million things that i need to do, but they're all secondary

de repente me deu um medo.

ou talvez não tão de repente assim. de repente, o medo voltou. um medo absurdo, sem sentido, sufocante, e eu já estou cansada dele, fecho os meus olhos e peço pra ele por favor ir embora o mais rápido possível. de onde que você surgiu?, eu quero perguntar, porque foram anos sem essa existência pra ele nascer e crescer assim tão rápido. por favor, suma o tão rápido quanto surgiu.

(ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora ela não vai embora)

(ela já me disse que não vai embora então ela não vai embora)

(essa promessa já foi feita há muito tempo, antes mesmo de existir tempo)

é difícil ser uma otimista medrosa.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sobre bruxas

parece que as labaredas estão queimando ainda, lambendo os pés e as bochechas, e os gritos não param de sair. parece que tem o segredo compartilhado entre irmãs, e a certeza de que vai continuar, independe de a casa ter sido marcada e o inquisidor ter sorrido enquanto torturava uma bruxa capturada. o segredo revelado, a vergonha pública, o choque da vila - mas aquela bruxa, ela estava entre nós? e é triste e engraçado, porque as bruxas faziam feitiços para a colheita e pra sarar feridas e também, por que haveria de se condenar?, pra causar a dor daqueles que já causaram muita dor. 

alguns riem e pensam na humilhação, e as bruxas sentem a humilhação e as lágrimas enquanto a pera destrói úteros e o açoite marca e machuca as costas. 

mas ainda assim
sempre existe outra bruxa

e as labaredas terminam o trabalho, mas tudo bem. porque mesmo que uma termine, ainda haverá outra. 

and i know i'm naive, but if anything that's what's going to save me

eu deitei no chão pra ver o mundo da mesma altura da minha cachorra, e ele me pareceu imenso.

a gente estava nos balanços com dez anos de idade, e éramos três. a gente estava no quarto e tínhamos catorze anos e éramos sete. a gente esteve em muitos lugares, e já fomos duas e dois, e três, e muitas vezes quatro e cinco. agora eu estou aqui e sou uma só. eu perguntei pra ela se não tinham aquele brinquedo em salvador, e ela disse que não, então ela ganhou um. e eu também descobri que pardal só tinha no ceará. eu mostrei pra ela a praça verde do dragão do mar. ela chorou na hora de ir embora, eu não.ele começou a chorar quando a gente tava dançando e eu comecei a rir porque eu não conseguia chorar. ele falou que aquele dia, que era o último dia, tinham sido um bom dia. a gente passou as mãos no rosto um do outro e se beijou, e alguma coisa devia ter terminado ali. o primeiro e último.tinha alguma coisa sobre o ano-novo, e esse ano vai ser diferente. eu não tinha chorado antes de ir embora, mas eu já chorei depois que fui. fico pensando se doía mais antes. já tinha me perguntado, sabe quando dizem que quando você tá apanhando muito, uma hora para de doer? eu fico chorando e chorando e chorando e às vezes eu nem sei porque, outras vezes acho que sei, sim, só não quero olhar. é involuntário a gente ser uma ilha? porque por mim eu seria uma árvore. uma vez ela me disse que baobás eram coisas tristes, mas seria bom dividir um pouco dos seus átomos com um baobá. nasci debaixo de um sol que determinou que eu ia sentir demais e por vezes eu sinto raiva disso e queria só segurar e controlar um pouco, mas parece que o lance é aceitar que como você é agora não é como você vai ser sempre, por mais que você ache que sempre é a mesma pessoa. eu sinto que eu não mudei nada dos quinze anos pra cá, mas existe algo em mim que grita que eu mudei, sim, sem saber se pro bem ou pro mal. e as pessoas ao meu redor, umas ficaram e outras não. será que eu criei uma couraça de espinhos? eu olho pra esses espinhos todos e penso em como eles surgiram aqui, porque em algum lugar não havia espinhos, só feridinhas e cicatrizes, e eu lembro de a gente - cinco - andando até a casa perto do colégio e cantando que não tinha aprendido a se render, que caia o inimigo então.

eu deitei no chão pra ver o mundo, e ele é tão imenso! 

i'll know the way back if you know the way

eu tenho que escrever pra
não morrer
e
as palavras pararem
de ficar me apertando
mas
tudo que eu escrevo soa
difícil
errado
e
forçado
palavras por favor
me ajudem a respirar
de novo.

a moça disse que era feia e eu fui lá e dei uma flor pra ela

ela disse que não havia nada que a lembrasse, que estava irremediavelmente perdida, que as coisas estariam fora do lugar e no fim: tudo bem estar fora do lugar e irremediavelmente perdida, pra onde a gente está indo, de qualquer forma? não tem problema não saber onde você tá nem onde vai chegar. é engraçado, bússolas. o nosso norte e o norte magnético. se é o contrário, como a gente pode se gabar de ter se encontrado? e de qualquer maneira a gente tá no espaço, não tem muito pra onde ir. deixa eu ficar um pouco perdida no seu cabelo e no seu sorriso, moça. o universo, ele é imenso e infinito do lado de fora sobre nossas cabeças e do lado de dentro, em algum ponto entre nossa laringe e os rins. parece que me deixa mais calma saber que eu nunca vou ficar calma - vamos pensar nas ondas do mar e em um furacão para fins de metáfora? - então deve haver alguma pequeno e corriqueiro milagre em perceber que as coisas são como elas são, acontecendo ao nosso redor com e sem a gente - and the time will come when you see we are all one and life flows on within you and without you.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

would you still remember me

é notável que eu tenho uma rainha - sei que não sirvo a essa rainha e que provavelmente já me distanciei e muito de onde ela reina. mas eu tenho uma rainha, que me contou sobre como meu coração tinha a realeza de cem mil coroas. ela não escolheu ser minha rainha e eu nem escolhi essa vassalagem que só me atrapalha, apenas aconteceu, de uma maneira que eu pensava que o tempo remediaria - mas não remediou. talvez eu não sinta mais a necessidade de impressioná-la ou obter algum tipo de aprovação, mas a admiração permanece. o que acontece é que eu me apaixonei incuravelmente pelas palavras da rainha e mesmo que nunca mais ouvisse nenhuma palavra dela para mim, as palavras que ela dedica a outras pessoas ou a si mesma bastariam para alimentar o meu amor vassalo. é engraçado como o tempo passa e as coroas parecem ter sido deixadas de lado, e como algumas das minhas lembranças mais alegres envolvem quatro ligações não atendidas durante uma prova de matemática e uma certeza de que ouviria a voz dela, a quilômetros de distância, em breve. tento transformar esse amor todo, há uma certa chateação - depois de todo esse tempo? eu diria meio brava meio brincando e ela talvez sorrisse em reconhecimento. parece que é sempre mesmo. me disseram uma vez que isso não era amor, era a admiração mais profunda, mas como não poderia ser os dois? lembro que riam de como eu ficava vermelha e empolgada falando sobre ela. será que poderia ter sido diferente? se eu não tivesse me apaixonado tão intensamente pelas palavras dela antes de conhecê-la? a ordem dos fatores poderia subitamente alterar o produto. mas nunca saberei. nunca saberemos, nem ninguém saberá, e o universo continuará desse jeito, com essa distância que eu quero quebrar e não consigo. e é agridoce achar que ficamos bem assim.