na primeira vez, sinto meus pés na areia macia. você está sentada de frente para o mar, o vento bagunça seu cabelo preto. caminho com um sorriso até o seu lado e me sento. você não me olha, solta um profundo suspiro e seus ombros caem. ainda sorrindo, passo meus braços ao redor de sua cintura e deito a cabeça nas suas costas.
na segunda vez, eu estou no metrô. você está folheando um livro e eu te olho, ávida. por meio segundo, você levantar o olhar e nós duas nos encaramos, e eu quase sinto você saber quem eu sou. mas o instante passa e você torna a ler o livro, deixando meu coração em frangalhos.
na terceira vez, seus olhos estão cheios de lágrimas e seu sorriso ilumina todo o seu rosto. coloco o anel no seu dedo, eu sempre fui a mais sentimental, então é deliciosamente surpreendente você estar feliz a ponto de chorar.
na quarta vez, você me acena de longe, andando de mãos dadas com um cara. sinto tudo dentro de mim quebrar, cada pequena rachadura se partindo enfim, todas as minhas cicatrizes subitamente abertas. minha cabeça roda e eu me encosto a uma árvore, desejando que essa seja a última vez. mas não é.
na quinta vez, eunãoconsigoteencontrar. falo isso rápido e sem respirar, onde está você, onde está você. que brincadeira estúpida é essa. eu sei que você está em algum lugar, mas eu não consigo te encontrar. por favor, por favor, me encontre.
na sexta vez, você está debaixo de mim, e meu sorriso é voraz, e meus dedos entram em você e você se contorce, os olhos semicerrados, a boca aberta. eu me abaixo e te beijo, de novo e de novo e de novo, porque eu acho que estamos acabando, meu amor.
na sétima vez, que é a última vez, meus pés estão mal equilibrados na sacada do prédio. você está lá embaixo. eu sorrio, porque é o grandioso fim e você vai assistir e é quase engraçado e quase doloroso que não vai doer nada em você - mas não tem problema, estou sentindo por nós duas. eu pulo e sinto o vento e você grita e finalmente isso tudo termina.
segunda-feira, 24 de março de 2014
terça-feira, 18 de março de 2014
everything that downs me makes me wanna fly
eu queria poder escrever sobre o seu cheiro - mas eu não sou uma pessoa que cheira outras, no geral. nem me lembro do cheiro de ninguém. só me parece apropriado, dizer que queria escrever sobre o seu cheiro. o que isso diz sobre mim? eu não sou muito de falar o que é apropriado, e você já comprovou isso diversas vezes. eu queria poder escrever sobre a sua pele. essa afirmação sim, pura e completa verdade. eu gosto de peles. eu reparo no toque das pessoas. queria poder escrever sobre sua pele, sobre sentir sua pele. don't wanna come with me, don't wanna feel my skin on your skin? it's only natural, eu penso imediatamente, abrindo um sorriso. queria poder escrever sobre as suas mãos com pequenas cicatrizes de acidentes domésticos, mas não como algo visual, e sim táctil. queria poder escrever sobre como é beijar você, sobre como é engraçado ter medo de arrancar o piercing de alguém com um beijo. queria poder escrever sobre a textura do seu cabelo, ou sobre pequenas manias que só presencialmente eu conheceria. queria escrever sobre apertar seu nariz, sobre abraçar você, sobre segurar a sua mão, sobre deitar no seu colo, sobre acarinhar seu cabelo, queria escrever sobre aspectos sensoriais de você. mas não posso (ainda?). posso escrever sobre como você acha que eu te vejo colorido e sobre como eu acho que talvez eu veja quase todo mundo que eu amo muito mais colorido que essas pessoas veem a si mesmas. nossa, que construção de frase difícil. ah, como sempre, eu me perdendo no meio dos meus textos. hmm? colorido! você. acho você colorido. acho você lindo. acho que você se vê com injustiça, ao mesmo tempo que acho você ponderado o suficiente pra admitir seus pontos positivos. acho bonita a forma que você se relaciona com as pessoas e com o mundo. gosto da raiva da convicção. gosto da raiva que alimenta. inclusive, isso não é algo exclusivo seu. mas como o texto é sobre você, falo sobre você. eu, me explicando, como sempre. egoisticamente, gosto de como fico bem conversando com você. falar com você me deixa feliz. pensar em algo que você me disse às vezes me faz rir, no meio da rua. algumas outras coisas me fazem abrir sorrisos que eu tento encobrir. lembra a conversa sobre ser uma pessoa sonhadora? meus sonhos idiotas sempre me fazem sorrir e abaixar a cabeça envergonhada, porque eu sempre imagino nós dois adoravelmente introvertidos e tímidos um com o outro, a princípio. ahn, talvez eu não devesse escrever isso aqui. sempre me vigiando, sempre me controlando. o engraçado é que eu falo tanto, mas eu já filtro tanta coisa! imagina se não filtrasse, coitado de você, coitado de todo mundo. como todo texto que eu escrevo aqui, eu simplesmente não sei como chegar ao fim. um texto sobre você me parece uma linha de tricô que eu fico enrolando na minha mão e nunca acaba. poderia escrever sobre seus olhos pretos de corvo, ou sobre suas sobrancelhas bonitas, ou sobre como eu gosto da sua risada - de verdade. cada vez que eu a escuto, meu coração se aquece de um jeito idiota. queria continuar compartilhando músicas e pensamentos com você, por tempo indeterminado. mas eu já falei, o medo das coisas se esvaírem. por favor, fique por perto o suficiente pelo menos pra dar tempo de eu cheirar a sua pele pra escrever outro texto, sim?
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