eu me pergunto se você se lembra o quão consciente eu sou
(se você se lembra que quando eu olho no espelho
eu só vejo os meus erros
e os machucados que eu fiz a outras pessoas
porque os meus machucados
eu sou capaz de perdoar)
e eu me pergunto se você sabe que eu sei que eu errei
e que eu não posso me desculpar (porque seria em vão, porque eu não mereço ser desculpada)
eu me pergunto se você sabe que eu sei que eu errei.
eu me pergunto isso vezes demais.
eu me pergunto também se nós concordamos em qual foi o meu erro:
foi o que aconteceu?
foi contar a você que aconteceu?
ou um é realmente inseparável do outro? porque eu nunca fui boa em esconder nada de você
eu me pergunto se houveram erros além desses
(você se sentiu abandonada?
você se sentiu deixada sozinha?
você se sentiu deixada de lado?
e eu percebo que eu fiz
você se sentir todas essas coisas
e isso também entra na lista dos meus erros)
eu penso em separações
aos poucos, e então de uma vez
era o nosso grande medo, não era?
você ainda acredita
ou seria capaz de acreditar
que eu tinha esse medo também?
eu me pergunto se você me odeia,
ou não gosta mais de mim,
ou sente raiva de mim,
ou apenas se sente mal
em pensar que eu continuo existindo
e que eu manchei você
e que eu manchei o que eu era pra você
e que eu manchei treze meses de afeto
em um mês de terror
eu me pergunto se até a minha culpa agora te soa falsa
mas você ainda me conhece
(será que você pensa assim?
ou será que eu destruí isso também?)
pra saber que a culpa é um corvo que canta no meu ombro
o dia inteiro
eu me pergunto se você limpou os cacos
que eu devo ter deixado em você quando tudo se quebrou
e se um dia você vai olhar para as cicatrizes sem odiá-las tanto
(eu me pergunto se o seu nunca mais foi
realmente
nunca mais)
eu me pergunto se eu tenho o direito de me sentir mal
mas não é um direito
e está além do meu controle
e eu me sinto mal por mim mesma
e pelos erros que eu cometi
e não por você
nunca por você
eu me pergunto se eu ainda posso pensar em você
ou se isso também seria machucar você
(eu não me pergunto se você irá me desculpar
porque você não deve,
a não ser que faça bem a você
desculpar alguém que tocou fogo em ruínas
eram ruínas mas eram nossas
eram bonitas, ainda
mas eu me pergunto se eu irei me desculpar
algum dia.
eu me pergunto se eu mereço meu perdão
e o corvo que é a culpa sozinho me deixa concluir
que nunca mais)