terça-feira, 2 de dezembro de 2014

but i keep it for good luck

eu senti vontade de parar de beijá-la, só pra dizer que ela deve ser uma dessas pessoas que as outras sentem sorte de estar beijando. como se houvesse tido uma grande conjunção dos astros pra que eu pudesse beijá-la, porque eu sempre fui a pessoa das escolhas erradas, então não tinha como por minha causa eu estar beijando ela. até mesmo se pensarmos nos eventos e causas e efeitos que levaram ela a querer me beijar - será que eu engoli um gerador de improbabilidades infinitas? mas quem parece ter um coração de ouro é ela, e não eu. eu deveria parar de beijá-la pra dizer um monte de coisas que provavelmente eu não poderei dizer depois. não que eu não acredite em amor nem nada do gênero, eu até acredito, mas acredito mais ainda em fins. como uma pessoa que acredita tanto em fins pode acreditar numa duração muito longa pra algo? eu sei que falar pra ela que beijá-la deve dar mais sorte que arco-íris e trevos e ferraduras e aqueles colares que vendem na feira com figas e pimentas e olhos provavelmente gerará um arrependimento futuro, do nível choro na madrugada ouvindo o transatlanticism pela oitava vez e pensando que não deveria ter dito nada, que dói menos o quanto menos as pessoas sabem que nos afetam. mas e se ninguém mais falar pra ela que é a maior de todas as sortes sentir os braços dela e mãos nas costas e corpo passando calor? de um jeito totalmente não erótico, eu queria poder dizer que ela é quente, muito quente. porque parece que ela te acolhe e eu deveria abrir os olhos e dizer abra seus olhos, porque não quero perder um segundo nem uma sensação desse instante suspenso no universo em que eu só posso sentir alegria. eu tenho que falar porque ela tem que saber, e até o fim dos meus dias eu vou me arrepender de não ter dito que qualquer pessoa que a boca dela tocasse, ou as mãos segurassem, ou os ouvidos ouvissem com atenção; qualquer pessoa com quem ela se importasse e se abrisse e se mostrasse era uma pessoa coberta de sorte pelo resto da vida. eu devia parar de beijá-la, só pra dizer que o amor dela inunda o universo inteiro.