eu não sei fumar, então estou com medo de parecer ridícula com esse cigarro entre os dedos. ela tá me ensinando a tragar, mas eu não consigo aprender. é difícil puxar a fumaça desse jeito, então acho que ou eu preciso de prática ou eu vou ser fumante só pra estragar os dentes. eu peço pra que ela me conte histórias dela e histórias do namorado dela, só pra manter a boca dela ocupada. eu passo o cigarro pra ela e ela fuma direito.
então o cigarro está comigo de novo, e eu tento parecer um pouco como a beleza do que faz mal. me falaram que eu combinava com cigarros, quando eu coloquei um na mão no ano-novo, só de brincadeira. me sinto com doze anos, sem saber o que fazer direito. mas tenho dezenove e estamos no último andar do prédio - que nem chega a ser um andar de verdade, penso, olhando pro céu entre a grade, sentada naquele chão de pedra áspera.
"você fica muito descolada fumando," ela diz.
eu olho pra ela. se existir mesmo o tal do olhar escorpiano, espero estar conseguindo fazê-lo agora. seguro o cigarro com o indicador e o polegar, não entre o indicador e o médio. me arrasto um pouco, arranhando de leve as pernas e mãos no chão e fico bem perto dela e dos olhos imensos que não encostam na pálpebra. olhos sanpaku, os japoneses anunciaram uma morte trágica pra ela e as posições dos astros definiram que eu não ia ter medo de contato com a morte.
"me beija, então," eu digo bem séria, como se houvesse alguma conexão entre eu estar descolada fumando e ela querer me beijar. não é essa a conexão óbvia, mas ela está ali, em algum lugar, envolvendo as nossas peles que às vezes parecem uma pele só, de tanto que a gente sente pela outra. ela tira o cigarro da minha mão - eu sou principiante, acho que ela não vai me querer queimada - e me beija, então.