quinta-feira, 3 de novembro de 2016

helpless

é aterrorizante o jeito como ele te ama.

você se dá conta disso quando sua cabeça parece feita de algodão e vocês dois compartilham uma garrafa de vodca no meio da rua, os dedos dele tocam os seus de leve; uma leveza falsa e calculada que a torna mais pesada do que se ele realmente só segurasse a sua mão. é surpreende, você percebe. ele ainda consegue se controlar o suficiente para fazer o gesto parecer casual. você já o conhece bem demais para saber que não há casualidade alguma nisso, vocês dois amigos há tempo demais, você costuma encher a boca pra dizer que ele te conhece, como ninguém conhece ou como você nunca pensou ser conhecido. a estrada vai nas duas direções, por mais que ele tente se esconder. ele tenta esconder os sorrisos, mas eles estão lá, no canto dos lábios. você pensa que poderia foder com ele. e ri. você quis dizer foder-estragar e não foder-trepar, mas se deu conta de que ambos eram verdadeiros. você poderia foder com ele: beijá-lo até os lábios de ambos estarem vermelhos, as barbas de vocês arranhando o rosto um do outro; você poderia deixar marcas no pescoço e nas coxas dele, arranhões, mordidas, uma demarcação de território inútil porque você sabe que ele já é seu, sem você ter pedido ou exigido. você poderia foder com ele: simplesmente fazer tudo isso, sabendo que o seu nome está escrito no coração dele ou qualquer merda assim, mas o contrário não. ou melhor, sim, mas não do jeito que ele queria. é sempre sobre isso, não é? você se pergunta se essa solidão um dia vai findar: é sempre sobre uma pessoa querendo muito e outra pouco. ou ambas querendo muito coisas diferentes, ou ambas querendo pouco a mesma coisa ou uma não querendo mudar enquanto a outra tem uma tonelada de distintas expectativas. as pessoas gostam de metáforas com quebra-cabeças e peças encaixando e você poderia rir disso porque nada nunca encaixa. ninguém nunca encaixa. todos estão em sintonias diferentes, o que torna alguns os vilões da história e outros os herois, enquanto todos só querem que

alguém compreenda?
ou que as batidas de coração finalmente se acalme
ou que a solidão cesse de vez
um fim, de certa forma, um fim de qualquer coisa que pode também significar um começo, já que o tempo é um ciclo e não uma linha

tanto faz, você percebe, porque você está bêbado e nenhum dos seus tópicos de pensamento fazem sentido e seu amigo te ama tanto que dói, em você e nele.

e você percebe com amargura que, pela falta de sintonia para qual a humanidade foi destinada, sempre vai doer mais nele do que em você.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

dois de copas

a percepção é que não vai ser o suficiente
(porque nem todo o amor do mundo seria suficiente para preencher esse buraco)

então é como observar algo de fora, visto de longe. uma compreensão fria e suspensa do desenrolar, caminhar por dentro do rio de águas escuras. eu sei o que há dentro da água. eu só não sei quando irei esbarrar nas coisas dentro dela. pedras. peixes. vidro. sujeira. beleza. lama. então eu caminho com cautela e mergulho de olhos bem abertos, mas é tão escuro que eu só me dou conta do que estou vendo quando já está na minha frente, quando eu já posso tocar nas minhas mãos. eu me sinto confortável e então não me sinto mais e então me sinto novamente, em um ciclo infinito e infindável como o ciclo da água.

eu sei o que vai acontecer
mas eu não sei o que vai acontecer
ou quando vai
ou como vai
ou se vai

é uma certeza muito frágil, tornada ainda mais quebrável pela esperança. a certeza da esperança é forte. ela me diz: aqui você vai encontrar um peixe, e eu estendo a mão procurando escamas, mas não tem nada. a realidade me diz: aqui você irá pisar em uma pedra afiada e eu me preparo para pisar em uma pedra afiada, mas é uma garrafa de vidro quebrada e eu me machuco.

estar pronto pra se decepcionar não significa que a decepção vai te bater mais gentilmente.
eu não sei o que estou esperando, ao mesmo tempo em que eu sei, e tantos indícios me dizem que eu estou certa em continuar afundada até os olhos nessa água. mas é só porque eu já estou nela, só porque eu quero estar nela, de certa forma.

alguém já me disse, com outras palavras, que eu era muito boa em preservar as minhas próprias algemas.

e isso também se tornou uma das inúmeras: eu me prendo as verdades que as outras pessoas disseram sobre mim, até elas se tornarem mais verdadeiras do que aquilo que eu penso que sei sobre mim. eu me seguro nas minhas correntes. elas doem, e eu gosto da dor, e elas me dão segurança, e meu coração tem medo, e eu não quero deixar um lugar até ele estar tão absolutamente contaminado pela minha essência que seja insuportável permanecer nele.

uma hora eu vou embora, é o que eu digo para mim e prometo para a água, uma promessa que eu nem mesmo sei se ela quer ver cumprida (ou melhor, que eu sei que ela não quer, mas eu também não sei), mas não agora.
não agora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

me diz o que é sufoco

[prece feita no corredor da universidade]
por favor, deixa ser eu, por favor, só dessa vez, eu juro que eu não peço mais nada. deixa ser eu, deixa ser eu, por favor, por favor, eu tô aqui, deixa ser eu.

[prece feita com gosto de vinho na boca e grama molhada contra as costas]
não deixa acabar assim. eu não sei, eu não sei mais o que pedir, eu só queria ser mais, mais, mais. por que eu sou tão terrivelmente mesquinha e egoísta? eu poderia só estar satisfeita, e eu rio, porque eu nunca vou estar satisfeita, eu sou mesmo igual a ele, egoísta e egocêntrica, cheia de palavras bonitas pra florear a decadência da verdade. se eu abrir os olhos ele ainda vai estar aqui e eu vou sorrir, eu vou sorrir tanto, e eu vou encarar que a felicidade é tão enorme e tão breve. chama que já vai se apagar, porque nunca vou ser eu e ele vai se afastar e eu vou ter a mera lembrança enevoada que me servirá como lâmina: todo dia eu vou me ferir, com a falsa memória de como seria se fosse eu, ao menos uma vez.

[prece feita entre cinza e fumaça de cigarro]
se não vou ser eu
deixa acabar
se não vou ser eu, por favor, por favor, tira isso de dentro de mim. se não vou ser eu, por que eu ainda insisto no se?, não serei eu, não serei eu, então deixa isso morrer. por favor, por favor, deixa isso morrer.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

i could go anywhere with you

"tú me quiere?"

silêncio.
alguém escreveu uma vez que estar em um telefone era como estar em uma dimensão a parte. estática e silêncio. é engraçado pensar — o seu corpo deitado na cama, talvez, olhos encarando o teto, escuridão ao redor. respiração. a respiração dele também e você não sabe como ele está, mas imagina: deitado, também, ou sentado encarando a cachorrinha descansar encostada à parede. e a dimensão fora disso tudo, a ligação que cruza mais fronteiras do que imaginado. além de paredes, e rios, e cidades e possivelmente pedágios, fronteiras linguísticas também e, especial e particularmente, as suas fronteiras que eram barreiras todas reduzidas a pó no meio da noite, que poderia ter sido tão quieta como qualquer outra, mas não foi, porque o eterno movimento do universo não quis assim.
estática. respiração.

"uhum."
porque é melhor entregar a verdade assim, um murmúrio que soa mais como o som do mar calmo à noite ou talvez do vento ou talvez das estrelas — e ele sente o coração se retorcer e encolher e então expandir, silêncio e silêncio, estática e batidas de coração. o instante suspenso da realidade naquela dimensão que só vocês dois têm acesso. eu apostaria todas as minhas verdades que o coração dele bateu simultaneamente rápido e calmo: rápido porque sim, porque uhum é um murmúrio que afaga o rosto como um sopro segundos antes de um beijo, calmo porque era verdade e ele sabia mesmo antes que fosse dito, mesmo antes de ele saber de fato, é o elemento mágico de um segredo que diz respeito a duas pessoas, não? elas sabem antes de ser sabido, e ele sabia, o tipo de coisa que se sente antes nos ossos, antes que se possa pensar, antes que.

silêncio e estática e respiração.
e o tempo se estica e estica e estica e parece preencher toda a distância que já no mundo. tempo e espaço, os maiores inimigos dos que se amam, finalmente dobrados a vocês: ele fecha os olhos e você também e ele tem medo que você durma de novo porque vocês estão tão cansados e então ele nota que não se importaria em ouvir você dormir — e que na realidade gostaria de poder ver esse instante, os olhos fixos em você, enquanto os seus estivessem se fechando. mas ele só pode ouvir e isso é suficiente, mas também não é.

e você poderia ter perguntado o caminho inverso — e talvez ouvir algo além de um uhum, ou talvez ouvir o mesmo murmúrio que soaria como carinho, ou talvez ouvir o silêncio da verdade, mas você não perguntou, pontas dos dedos formigando e olhos brilhando no escuro. não, você não perguntou, porque a verdade é tão bela quanto é terrível, e você a conhece antes mesmo de ele anunciá-la e você sabe que a verdade dita em voz alta muda ainda mais os conceitos de tempo e espaço.

mas vocês estão em outra dimensão, e não haveria problema em perguntar, porque todas as estrelas se dobrariam apenas para que você pudesse imaginar que ele também estava lá.

(e ele está — em silêncio e em estática.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

and i know that it's so cliche to talk about you this way

meu coração muito acelerado enquanto eu vou andando até o desembarque do aeroporto de salvador, as portas automáticas se abrem ao mesmo tempo que os nossos sorrisos, meus passos apressados percorrem os poucos metros de distância entre nós, depois de tanto tanto tanto tempo. a gente se abraça. você chora, eu peço pra que não chore, a gente vai comer; na verdade, a gente vai sentar, porque toda a fome que eu tava é substituída pela constatação de que você é linda linda linda; o cabelo imponente, os olhos da capitu, o nariz engraçadinho, a boca bonita, o colo lindo, e os pelos do suvaco, meu deus, meu sorriso se alargava sempre com essa pequena grande transgressão social. eu te dou seu presente, você me diz "pepinos"; então está mesmo acontecendo, eu estou te olhando admirada e abobalhada. e então--

(isso estava nos meus rascunhos há tempo demais
e a realidade me faz sorrir e chorar muito.)

você longe, muito longe. o vestido é azul, acima dos seus joelhos, as alças são finas e eu amo seus ombros. longe. você dá um passo para o lado e para o outro e rodopia, e sorri e - minhas frases são todas incompletas. minhas mãos estão suadas e eu queria poder te tirar pra dançar, você e seu vestido azul e rodado, mas não acho que vão aceitar ver a gente dançando. eu imagino nossos vestidos rodopiando juntos. o meu tem mangas e é preto e eu sou discreta, cabelo preto preso num coque, vestido preto, sapatos pretos. você sorri o sorriso mais lindo e todos os homens te acham linda e provavelmente as mulheres também. talvez a maioria das mulheres daqui te achem linda de um jeito diferente do meu - o meu jeito dói no fundo do meu peito e afunda meu coração dentro da minha barriga. você é a pessoa mais linda do mundo, eu repito dentro da minha cabeça e dói, dói, dói.

if i ever feel better

por uns instantes, eu senti o pânico de não saber o que dizer.

é como tropeçar: aquele pequeno segundo de susto em que você não tem a menor certeza se vai ser capaz de permanecer em pé ou se se seus joelhos e palmas das mãos serão marcados pelo toque áspero do asfalto. eu olhei nos seus olhos (só dentro da minha cabeça, em que é surpreendente o quão bem registrados eles estão, enormes, sanpaku, emoldurados por pequenas espirais ou por espiral nenhuma. eu me perco dentro desses parêntese porque me lembro tão bem dele que devo agradecer a alguém essa memória de entalhe em pedra: seus olhos e as mudanças que neles se operaram pelos seis anos que eu te vi) e não soube o que dizer e isso me pareceu, essencialmente, deslocado. formei as palavras no ar: eu não sei o que dizer. antes seria uma admissão tranquila. não sei o que dizer, porque não preciso dizer nada. você me conhece como conhece as ruas da sua cidade. agora eu não sei o que dizer e isso me apavora. eu me agarro em possíveis lembranças, como se fossem correntes: eu sou eu, ainda, mas eu também não sou mais o que eu era; você também não é como você era e eu te disse que essa era a você mais você, você genuinamente você, e eu rio comigo mesma com lágrimas nos olhos porque bentinho se afastou de capitu e quando voltou ela era ela como nunca tinha sido. você é você é você é você. acho que tem tanta você pra eu descobrir de novo agora e tentar entender e mapear, mas também tem tanta ou tão pouca eu que eu não consigo--

eu não sei o que dizer.
eu queria conseguir. eu ainda consigo? eu ainda tenho chance de você segurar a minha mão e me mostrar o caminho das pedras que eram tão conhecidas por nós duas? eu queria olhar de novo para o mar com você (aqui, um mar de grama seca e folhas mortas). eu queria, eu queria, eu queria.

que eu não estivesse com essas correntes que me prendem ao passado e que me fazem pensar que eu estou me despedindo, sempre, de novo e de novo. eu não vou me esquecer de você, nunca, porque for all time, mas eu não quero não me esquecer de você por estar sempre tocando a mesma canção na minha cabeça, eu quero.

eu quero não esquecer de você porque a gente vai estar cantando de mãos dadas, em alto e bom som.